A França voltou a ser palco de grandes manifestações que tomaram as ruas de Paris e diversas outras cidades, impulsionadas pela insatisfação popular com a alta do custo de vida e a precariedade dos serviços públicos.
A mobilização ganhou forte intensidade nas últimas semanas, unindo estudantes insatisfeitos, sindicatos de trabalhadores e integrantes do movimento dos Coletes Amarelos em marchas constantes contra as medidas do governo.
O cenário reflete tensões sociais acumuladas e um momento financeiro bastante delicado para o país europeu, conforme informações divulgadas por agências internacionais de notícias e autoridades locais.
O estopim nas escolas e a ampliação das pautas
A recente onda de protestos na França teve início no mês de setembro, no momento em que o governo do presidente Emmanuel Macron começou a debater a proposta de orçamento para o ano de 2027.
O projeto previa o congelamento do salário de servidores públicos, gerando revolta imediata. Estudantes decidiram bloquear o acesso a uma escola na região de Paris para exigir mais recursos para a instituição.
Rapidamente, alunos de outras escolas denunciaram a falta de estrutura adequada dos prédios, a superlotação em salas de aula e um modelo de admissão em universidades considerado injusto pela comunidade escolar.
Pouco depois, a indignação estudantil recebeu a adesão de centrais sindicais e de manifestantes dos Coletes Amarelos, grupo que ganhou projeção em 2018 ao contestar os aumentos nos preços dos combustíveis.
Divergência nos números e novas reivindicações
Neste sábado, o Ministério do Interior da França informou a presença de 320 mil pessoas nos atos pelo país, sendo 70 mil na capital. A coalizão de sindicatos e estudantes estimou o público em 500 mil participantes.
No sábado anterior, as autoridades registraram 410 mil manifestantes, enquanto os organizadores falaram em 800 mil pessoas marchando nas ruas para protestar contra a carestia e os cortes de verbas.
Em Paris, cartazes exibiam frases como “alerta climático”, “pelo custo de vida” e a mensagem satírica “No Halloween, a gente se fantasia de democracia”, carregada por um manifestante durante o ato.
A pauta original também incorporou denúncias contra o crescimento do racismo no território francês, após um ataque a tiros contra um grupo de imigrantes ocorrido pouco antes das manifestações deste fim de semana.
Os protestos ocorreram sob forte vigilância policial, semanas após distúrbios e saques que danificaram comércios e prédios públicos. Atos similares também foram registrados na Alemanha, com repressão policial.
Contas públicas e o desafio político de Macron
O delicado quadro econômico permanece no centro da crise francesa. De acordo com o Eurostat, a dívida pública do país alcançou o nível alarmante de 119,1% do Produto Interno Bruto no segundo trimestre.
No ano de 2025, o déficit fiscal francês atingiu a marca de 5,1% do PIB, superando com folga o limite de 3% permitido pelas regras da União Europeia, o que acendeu o sinal de alerta entre os credores.
A agência Fitch rebaixou a perspectiva da nota de crédito do país de estável para negativa, e dados recentes revelaram que a economia francesa entrou em contração no terceiro trimestre do ano corrente.
Pressionado a conter gastos e sob cobrança das ruas, Macron precisa administrar o desgaste visando a sucessão presidencial de abril de 2027, enquanto Jean-Luc Mélenchon sobe e Marine Le Pen lidera as pesquisas.
