O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quinta-feira (24/09/2026), em coletiva sobre o Relatório de Política Monetária, que a autoridade monitora ofertas de crédito consideradas agressivas ou predatórias, que podem levar consumidores a contrair dívidas superiores à sua capacidade de pagamento.
Galípolo ressaltou que muitos tomadores focam apenas no valor da parcela que cabe no orçamento imediato e não avaliam o custo total do empréstimo, especialmente a taxa de juros aplicada ao longo do contrato.
Segundo o presidente do BC, entre os cerca de 100 milhões de brasileiros endividados no cartão de crédito, aproximadamente metade arca com juros próximos de 15% ao mês e tem parcela relevante da renda comprometida por essa modalidade.
O dirigente citou dados do próprio Banco Central que mostram que, em janeiro, os juros do crédito rotativo chegaram a 425% ao ano. Nos 12 meses encerrados naquele mês, o saldo do rotativo cresceu 31%, alcançando R$ 84,8 bilhões — a maior alta entre as modalidades de crédito livre para pessoas físicas no período.
Galípolo também lembrou indicadores sobre o endividamento das famílias: em fevereiro, houve comprometimento de quase 30% da renda mensal com o pagamento de dívidas, e o indicador que mede o total de dívidas em relação à renda acumulada em 12 meses atingiu 50%.
Medidas em estudo
Para reduzir o risco de superendividamento, o Banco Central vem analisando práticas adotadas no exterior e avalia um conjunto de ações que combinam prevenção, maior transparência e mudanças no processo de contratação. Entre as propostas em análise estão:
- exigir consentimento expresso para o envio de ofertas de crédito a consumidores classificados como vulneráveis ou já muito endividados, em vez do envio automático dessas propostas;
- introduzir mecanismos que tornem a contratação menos impulsiva — por exemplo, etapas adicionais que forcem o consumidor a pausar e receber mais informações antes de aceitar a operação;
- alterações no Fator de Ponderação de Risco (FPR), parâmetro usado pelo BC para dimensionar o capital que instituições financeiras precisam manter frente a perdas potenciais, o que pode influenciar as condições de oferta de cartão de crédito e empréstimo pessoal sem garantia.
O presidente mencionou o exemplo de Singapura, onde há critérios para determinar quais consumidores podem receber ofertas de cartão, e disse que as medidas serão apresentadas de forma gradual, não em um único pacote.
Risco de deslocamento da oferta
Galípolo advertiu, porém, que instrumentos macroprudenciais tradicionais podem ter efeito limitado ou provocar deslocamento da oferta para instituições não supervisionadas pelo Banco Central (NBFIs). “Há o risco de apertar o crédito dentro do perímetro de supervisão e gerar vazamentos para onde a autoridade tem menos alcance regulatório”, afirmou o presidente.
Apostas e efeitos no orçamento das famílias
Questionado sobre o impacto das apostas esportivas no endividamento das famílias, Galípolo informou que o BC acompanha estudos sobre os efeitos econômicos e financeiros desse mercado, como influência no consumo, na renda e no crédito. O monitoramento, segundo ele, é restrito aos impactos econômicos e não se estende a avaliações de saúde pública.
Como contextualização, pesquisas e levantamentos recentes apontam preocupações já colocadas em discussão pública: em junho de 2024, pesquisa do DataSenado indicou que 42% dos brasileiros que apostavam apresentavam contas com atraso superior a 90 dias; e um estudo do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros registrou que, em 2025, as apostas online causaram saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias.
Reunião no Palácio da Alvorada
Na quarta-feira (23/09/2026), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu ministros e autoridades para discutir possíveis medidas sobre as apostas. Participaram do encontro Dario Durigan (Fazenda), Miriam Belchior (Casa Civil), Bruno Moretti (Orçamento e Planejamento), Wellignton César (Justiça e Segurança Pública), Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação) e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Segundo participantes, a reunião não teve resolução final: há divisão entre permitir uma proibição total das apostas ou adotar medidas mais restritas, como veto à publicidade e proibição de cassinos virtuais específicos.
O Banco Central diz que continuará avaliando alternativas que combinem proteção ao consumidor e manutenção do funcionamento do sistema financeiro, minimizando a migração de risco para instituições sobre as quais tem menor poder de supervisão.
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