A Coreia do Norte deve continuar enviando militares para apoiar a Rússia no conflito com a Ucrânia, mas a estratégia depende do retorno político e financeiro que Pyongyang obtiver dessa colaboração.
O que já ocorreu
No final de 2024, a Coreia do Norte deslocou contingentes próprios para lutar ao lado das forças russas na ofensiva para repelir ações ucranianas em solo russo. Do total de cerca de 13 mil soldados enviados à campanha, as estimativas de baixas variam: uma análise do memorial do governo norte-coreano indicou aproximadamente 2,3 mil mortos, enquanto o serviço de inteligência ucraniano (HUR) calcula até 3 mil mortos e 1,5 mil feridos.
Os confrontos em que as tropas norte-coreanas foram identificadas ocorreram pela primeira vez em novembro de 2024; os primeiros prisioneiros capturados com vida apareceram em janeiro de 2025. A participação de combatentes de Pyongyang foi reconhecida publicamente pela Rússia em abril de 2025, quando o chefe do Estado‑Maior russo, Valery Gerasimov, elogiou o “heroísmo” dessas forças.
Presença atual e papel no front
Autoridades ucranianas e análises de inteligência estimam que cerca de 8,5 mil militares norte-coreanos ainda estejam no território russo, organizados em quatro brigadas integradas ao que é chamado Grupo de Forças “Norte”. Sua missão, segundo relatos, tem sido proteger a fronteira russa na região de Kursk contra incursões ucranianas; as autoridades ucranianas afirmam não ter observado unidades do Exército Popular Coreano operando em territórios ucranianos temporariamente ocupados.
Especialistas sul‑coreanos e ocidentais consideram que muitas das tropas destacadas pertencem ao Storm Corps, a unidade de elite das forças armadas norte‑coreanas. Apesar do prestígio que recebem internamente, relatos de combate apontam problemas com comunicação e equipamento, além de tácticas que, embora determinadas, resultaram em pesadas perdas iniciais.
Ameaça de novos destacamentos
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky alertou, em agosto, que Pyongyang poderia mandar até 50 mil militares para a Rússia — revisão de uma estimativa anterior de 30 mil. Zelensky também afirmou haver preparativos desde junho em Voronezh para receber novos contingentes e declarou que a Coreia do Norte estaria pronta para transferir armas balísticas à Rússia. Com isso, Kiev tem buscado apoio externo, inclusive pedindo à Coreia do Sul equipamentos avançados, como sistemas de defesa aérea.
Por que a Coreia do Norte aceitaria perder soldados?
Para o regime de Kim Jong‑un, a operação foi uma aposta estratégica, a maior mobilização externa de suas forças desde a Guerra do Yom Kippur (1973), quando cerca de 1,5 mil militares foram enviados ao Egito, e desde os combates da década de 1960, quando pilotos norte‑coreanos apoiaram o Vietnã do Norte.
Além da experiência de combate — considerada valiosa pelo próprio aparato militar de Pyongyang — a participação trouxe benefícios econômicos e políticos substanciais. Pesquisadores em Seul calculam que a venda de armamentos e o destacamento de tropas para Moscou teriam gerado cerca de US$ 10 bilhões para a Coreia do Norte, valor relevante para um país cujo PIB anual é estimado em torno de US$ 30 bilhões.
Em troca de seu apoio, Pyongyang recebeu abastecimentos essenciais, como alimentos, petróleo e moeda estrangeira. A parceria com Moscou também tem servido para reduzir a dependência exclusiva de Pequim, um objetivo geopolítico do regime norte‑coreano. Em setembro do ano passado, Kim Jong‑un esteve ao lado de Xi Jinping e Vladimir Putin em Pequim — a primeira vez que os três líderes apareceram juntos em evento público.
Consequências militares e humanas
Relatos de combatentes ucranianos que enfrentaram as tropas norte‑coreanas descrevem táticas massivas de assalto e baixa proteção individual: ausência de coletes, roupas de frio e capacetes, dificuldades de integração com unidades russas e forte incidência de vítimas por ataques com drones. Muitos corpos norte‑coreanos foram encontrados sem documentos pessoais, o que reforça a dificuldade de identificação em campo.
Vídeos e testemunhos documentaram casos de soldados que preferiram a autodetonação a serem capturados. Em abril de 2025, durante uma cerimônia no recém‑inaugurado Museu de Operações Militares Estrangeiras, Kim Jong‑un elogiou esses combatentes, descrevendo-os como “heróis” que escolheram a autodetonação para “defender a honra”.
O número de prisioneiros norte‑coreanos capturados vivos pelas forças ucranianas permanece muito baixo: apenas dois foram mantidos vivos após confrontos, e outro sucumbiu às lesões. Informações do Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul indicam que alguns dos prisioneiros relataram que, no Exército da Coreia do Norte, ser prisioneiro de guerra é tratado como crime, o que explicaria a resistência à rendição.
Por que Moscou precisa tanto desses combatentes?
Quatro anos e meio após a invasão, a Rússia enfrenta escassez de pessoal. Agências de inteligência ucranianas e ocidentais estimam que Moscou perde cerca de 6 mil soldados a mais por mês do que consegue alistar, forçando a escalada do recrutamento de combatentes estrangeiros — vindos, além da Coreia do Norte, de países como Colômbia, Quênia e Camarões.
Para ambos os lados, a aliança é mutuamente útil: a Rússia obtém reforços e apoio técnico, e a Coreia do Norte adquire recursos, tecnologia e experiência real de combate. Ainda assim, o envio continuará apenas enquanto for vantajoso para Pyongyang.
Riscos diplomáticos e próximos passos
Até o momento, não há confirmação de tropas norte‑coreanas operando diretamente em território ucraniano — algo que poderia provocar repercussões diplomáticas adicionais, especialmente com a Coreia do Sul, aliada de Kiev. A Ucrânia vem pressionando Seul por mais assistência militar; por sua vez, a política sul‑coreana avalia com cautela como responder a um possível aumento da presença de soldados de Pyongyang no conflito.
No cenário estratégico mais amplo, a cooperação entre Rússia e Coreia do Norte sinaliza uma aproximação que envolve ganhos econômicos, transferência de tecnologia militar e um reposicionamento geopolítico que Pyongyang considera vantajoso enquanto durar o conflito.
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