O mercado brasileiro registrou 271 mil veículos leves eletrificados entre janeiro e julho de 2026 — um crescimento de 21% em relação ao total do ano passado. Em julho, modelos elétricos e híbridos corresponderam a 21% das vendas de veículos leves no país, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
O avanço da frota tem forçado oficinas tradicionais a rever investimentos: algumas têm comprado equipamentos específicos e enviado profissionais a treinamentos para lidar com sistemas de alta tensão, baterias e eletrônica embarcada. Mas a maior parte dos estabelecimentos ainda não está preparada para atender a demanda que se aprofunda à medida que os veículos saem da garantia das montadoras.
Investimentos e retorno
Em Curitiba, o proprietário de uma oficina especializada em importados, Willian Leonelo, aplicou R$ 230 mil em equipamentos e capacitação para trabalhar com híbridos e elétricos. “Hoje vale a pena atender híbridos e elétricos. O lucro é melhor do que nos carros convencionais”, afirma Leonelo.
Segundo ele, os gastos não se encerram na compra de maquinário: cada nova plataforma pode exigir ferramentas e procedimentos adicionais. A oferta de serviços independentes tem atraído clientes por preços significativamente inferiores aos orçamentos das concessionárias. Leonelo cita o exemplo de uma bateria de alta tensão de uma Volvo XC40 híbrida: orçamento de concessionária entre R$ 60 mil e R$ 80 mil, enquanto uma oficina especializada pode cobrar cerca de R$ 20 mil.
Principais problemas relatados
Segundo relatos de reparadores, determinados modelos concentram as ocorrências mais frequentes entre elétricos e híbridos. Entre eles:
- Volvo (modelos até 2022): problemas em compressor do ar‑condicionado, transmissão, tomada de carregamento e sistema de aquecimento;
- Nissan Leaf: perda de autonomia e falhas em células da bateria;
- BYD Dolphin: defeitos na caixa de direção;
- GWM Haval H6 (híbridos): avarias associadas ao uso de gasolina com alta concentração de etanol.
Oficinas ainda despreparadas
Para Evaldo Kosters, diretor do Sindicato das Empresas de Reparação de Veículos do Paraná (Sindirepa‑PR), cerca de 99% das oficinas associadas à entidade ainda não têm estrutura para atender híbridos e elétricos. Até o momento, apenas quatro estabelecimentos associados estão capacitados — todos do segmento de funilaria e pintura.
Kosters explica que as empresas de reparo de carroceria foram as primeiras a se adaptar porque muitos veículos eletrificados chegam a oficinas após colisões, exigindo cuidados para preservar sistemas elétricos e garantir segurança nos reparos. Nas oficinas mecânicas, a demanda por serviços específicos ainda é reduzida, em parte porque boa parte da frota recente permanece na garantia das montadoras.
“As montadoras, em sua maioria, veem os reparadores como concorrentes e não como parceiros e clientes”, afirma Kosters, apontando outro obstáculo: o acesso limitado a informações técnicas e a certos componentes que não estão amplamente disponíveis no mercado de reposição.
Custo e formação
O custo para adaptar uma oficina varia conforme a complexidade dos serviços oferecidos. Estimativas do sindicato indicam investimentos entre R$ 20 mil e R$ 150 mil, sem incluir equipamentos específicos para reparos de baterias e motores elétricos. Esse aporte pode ser impeditivo para pequenas empresas.
Ainda assim, iniciativas de qualificação já estão em andamento: o Sindirepa‑PR, em parceria com o Senai, oferece programas voltados à formação de profissionais para atuação segura em sistemas de baixa e alta tensão.
Demanda por informação e manutenção
Ferramentas de análise de busca mostram crescimento no interesse por manutenção de veículos elétricos. Dados do Google Trends indicam que as buscas pelo termo “manutenção de carro elétrico” começaram a subir no fim de 2023 e atingiram, em agosto de 2026, o maior nível dos últimos cinco anos. No índice do Google Trends, 100 representa o pico de interesse dentro do período analisado; no início da alta o índice estava em torno de 40.
O aumento nas buscas acompanha a expansão da frota e sinaliza que os consumidores começam a priorizar informações sobre serviços especializados, custos e redes de atendimento fora das concessionárias.
Enquanto isso, oficinas independentes tentam equilibrar investimento, formação e acesso a peças para aproveitar um mercado que cresce rapidamente, mas que exige protocolos de segurança, equipamentos caros e constante atualização tecnológica.
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