Uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos desenvolveu uma estratégia que torna novamente eficaz a vancomicina — antibiótico usado como último recurso — contra cepas de Enterococcus faecium resistentes (VREfm). O efeito foi obtido ao bloquear uma enzima bacteriana chamada secreted antigen A (SagA) com uma pequena molécula identificada como pghi‑4, resultado publicado na revista Nature Communications em 16 de junho de 2026.
Os autores mostram que a inativação genética ou farmacológica da hidrolase de peptidoglicano SagA prejudica o remodelamento da parede celular do microrganismo, aumentando a presença de motivos peptídicos (D‑Ala‑D‑Ala) que permitem a ligação da vancomicina ao alvo bacteriano. Com isso, a sensibilidade das cepas VREfm à vancomicina é significativamente ampliada ex vivo e em modelos experimentais in vivo.
O composto pghi‑4 foi identificado a partir de uma biblioteca sintética construída pelo laboratório de John Moses, que aplica métodos de “click chemistry” conhecido como diversity oriented clicking (DOC). Em testes de combinação, pghi‑4 sozinho não eliminou as bactérias, mas quando usado junto com vancomicina reduziu a carga bacteriana e melhorou desfechos em modelos animais de sepse por VREfm.
O trabalho envolve colaboração entre o laboratório de Moses, no Cold Spring Harbor Laboratory, e grupos do Scripps Research, entre outros, e descreve também a descoberta de inibidores covalentes da família NlpC/P60 a que pertence SagA — a primeira classe desse tipo apontada como capaz de “rearmar” a ação da vancomicina contra isolados clínicos geneticamente distintos.
Os autores ressaltam que, apesar dos resultados promissores em laboratório e em animais, há etapas importantes antes de qualquer uso clínico: estudos de segurança, caracterização farmacocinética/farmacodinâmica, testes em modelos de infecção complexos (por exemplo, endocardite) e ensaios clínicos para avaliar eficácia e riscos em humanos.
Além dos desafios biológicos, os pesquisadores apontam impedimentos econômicos típicos no desenvolvimento de adjuvantes antibióticos: tratamentos curtos e uso restrito, destinados a evitar nova resistência, tendem a reduzir o retorno comercial e podem exigir financiamento público ou modelos de incentivo para avançar até a clínica.
Especialistas ouvidos no contexto das pesquisas destacam que a abordagem — desenvolver moléculas que não atuam por si mesmas como antibiótico, mas que restauram a eficácia de medicamentos existentes — é uma estratégia promissora para ampliar o arsenal contra microrganismos multirresistentes sem depender exclusivamente da descoberta de novos antibióticos.
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