Calor recorde dos oceanos ameaça oferta de peixes, pressiona preços e afeta turismo e energia
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Calor recorde dos oceanos ameaça oferta de peixes, pressiona preços e afeta turismo e energia

Temperatura média dos mares atingiu 21,07 ºC em agosto, igualando recorde; cientistas alertam para impactos econômicos e exigência de adaptação

Redação Portal Web Dicas 4 min de leitura Economia

Por Redação — São Paulo | 14/09/2026

O aquecimento extremo dos oceanos já produz efeitos econômicos além do impacto ambiental: a elevação das temperaturas marítimas reduz a disponibilidade de pescado, pode pressionar preços de alimentos, enfraquece destinos turísticos costeiros e cria riscos para instalações de geração de energia.

Boias robóticas e outras redes de monitoramento vêm registrando as mudanças em tempo real, ajudando pesquisadores a mapear variações de temperatura e alterações na circulação da água.

Dados recentes e tendências

Segundo o serviço Copernicus Marine Service, a temperatura média dos oceanos — excluindo regiões polares — alcançou 21,07 ºC em agosto, o mesmo valor registrado em março de 2024. O verão de 2026 no hemisfério norte (junho a agosto) foi o mais quente desde 1993, de acordo com o Copernicus, em um período influenciado pelo fenômeno natural El Niño combinado ao aquecimento global de origem humana.

“O motor do calor recorde é a mudança climática; é a tendência de longo prazo”, afirmou Zachary Labe, climatologista do centro de pesquisa Climate Central.

Labe também observou que os oceanos passaram por uma sequência de aproximadamente 100 dias de calor recorde para a época do ano, estimativa construída com dados preliminares da NOAA. Ele acrescentou que é provável que temperaturas extremas continuem sendo registradas pelo menos até 2027.

Impactos na pesca e no preço dos alimentos

Ondas de calor marítimas alteram a saúde e a distribuição de espécies: podem provocar surtos de doenças, mortalidade elevada ou deslocamento de peixes para águas mais frias. Em consequência, áreas de pesca são temporariamente fechadas ou apresentam oferta menor, com reflexos em toda a cadeia produtiva.

“As ondas de calor marítimas podem levar ao fechamento de áreas de pesca devido a doenças, mortalidade de espécies ou simplesmente porque os peixes se deslocam para regiões mais frias do oceano. Isso pode custar milhões ou até bilhões de dólares às comunidades afetadas, além de ter consequências nos preços dos alimentos”, explicou Kathryn Smith, da Associação Britânica de Biologia Marinha.

Especialistas citam o Marrocos como exemplo: o aumento da temperatura das águas contribuiu para a queda nas populações de sardinha, o que levou a proibições de exportação e a escassez nos mercados europeus, segundo pesquisadores ouvidos por cientistas que acompanham o fenômeno.

Menos pescado disponível atinge pescadores, empresas de processamento, exportadores, comerciantes e consumidores, num efeito cascata que pode elevar custos e reduzir oferta de proteínas provenientes do mar.

Turismo e recifes de coral

Recifes de coral estão entre os ecossistemas mais vulneráveis às ondas de calor marítimas: o branqueamento e a degradação desses ambientes afetam diretamente o turismo ligado a praias, mergulho e observação da vida marinha. A perda de biodiversidade ou da estética dos recifes tem impacto sobre hotéis, restaurantes, agências de turismo, operadores de mergulho e trabalhadores locais.

“O calor prolongado nos oceanos não é apenas um problema ambiental”, afirmou Tom Pickerell, diretor do programa de oceanos do World Resources Institute (WRI), destacando que os efeitos se espalham para setores econômicos e comunidades costeiras.

Riscos para energia e infraestrutura costeira

O aquecimento das águas também pode interferir em sistemas de geração de energia que utilizam água do mar para resfriamento. Um caso recente citado por cientistas envolveu usinas nucleares na França que tiveram produção reduzida depois que grande quantidade de águas-vivas obstruiu seus sistemas de captação.

Além disso, a expansão térmica da água — quando o mar aquece ele ocupa mais volume — contribui para a elevação do nível do mar, aumentando a pressão sobre cidades e infraestruturas costeiras. Para países e comunidades insulares mais vulneráveis, a consequência é a necessidade de investimentos maiores em proteção, adaptação e reconstrução.

Política climática e adaptação

Pesquisadores dizem haver poucas soluções imediatas além de intensificar políticas de mitigação das mudanças climáticas. O tema deverá constar da agenda da COP31, marcada para novembro em Antália, na Turquia; segundo Pickerell, o assunto também deveria mobilizar ministros das Finanças, pela dimensão econômica dos impactos.

“Em terra, sempre podemos instalar ar-condicionado para nos refrescar. Mas a adaptação dos oceanos e da vida marinha não é tão simples e continua sendo muito limitada”, lembrou Claire Bergin, pesquisadora da Universidade de Maynooth, na Irlanda.

Na prática, a resposta econômica exigirá maior investimento em resiliência de infraestruturas, medidas para proteger ecossistemas costeiros e estratégias de adaptação para comunidades e setores que dependem diretamente do oceano.

Com informações de pesquisadores e de observatórios internacionais de clima e oceanos.

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1 Comentário

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