Uma análise que reuniu dados de três grandes coortes norte‑americanas concluiu que o uso diário de multivitamínicos não está ligado a maior longevidade entre adultos inicialmente saudáveis e, em uma janela do acompanhamento, foi associado a um aumento modesto do risco de mortalidade.
O artigo, publicado em 26 de junho de 2024 na revista JAMA Network Open, compilou informações de 390.124 participantes sem histórico de doença crônica e com acompanhamento superior a 20 anos — no total ocorreram 164.762 óbitos durante o período analisado. Na análise combinada das avaliações temporais, o uso diário de multivitamínicos esteve associado a 4% maior risco de morte na primeira metade do acompanhamento (hazard ratio, 1,04), sem benefício claro na segunda metade do período.
Pesquisadores e agências de saúde ressaltam que, fora de situações específicas de deficiência ou indicação médica, multivitamínicos não substituem uma alimentação variada e balanceada como principal fonte de micronutrientes. Esse posicionamento também foi destacado em comunicados do National Institutes of Health e do National Cancer Institute ao divulgar o estudo.
Existem circunstâncias em que a suplementação é recomendada — por exemplo, ácido fólico para quem planeja gestação (400 µg/dia, iniciando idealmente antes da concepção) ou correções específicas para deficiência de vitamina B12 e vitamina D em pacientes avaliados clinicamente. Nessas situações a escolha da dose e do composto deve considerar idade, exames laboratoriais e orientação profissional.
Além da ausência de evidência de ganho na expectativa de vida para adultos saudáveis, o uso indiscriminado pode acarretar efeitos adversos. Vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K) acumulam‑se no organismo e, em doses elevadas e prolongadas, podem provocar toxicidade: excesso de vitamina D pode causar hipercalcemia, com náuseas, alterações neurológicas e formação de cálculos renais; doses muito altas de vitamina E podem aumentar o risco de sangramentos.
Vitaminas hidrossolúveis e minerais também não são isentas de risco quando usados em excesso: altas doses de vitamina C podem elevar a excreção de oxalato e, em indivíduos suscetíveis, favorecer cálculo renal; suplementação prolongada de zinco em quantidades excessivas pode comprometer a absorção de cobre e afetar o sistema imune.
Profissionais alertam ainda para interações entre suplementos e medicamentos, e para grupos que devem ter cuidado redobrado ao se automedicar com vitaminas: crianças, idosos, gestantes, lactantes e pessoas com insuficiência renal, doença hepática, alterações na coagulação ou em tratamento crônico com fármacos. Nessas situações, o acompanhamento clínico é essencial.
Em resumo: para adultos saudáveis, a evidência disponível não apoia o uso rotineiro de multivitamínicos com a intenção de prolongar a vida; quando há necessidade clínica — deficiência demonstrada em exames, gravidez, doenças que afetam a absorção ou perdas aumentadas de nutrientes — a suplementação pode ser indicada e deve ser orientada por um profissional de saúde.
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