Por Ewandro Schenkel — 14/09/2026 às 14:19
Decidi defender Christopher Nolan. Recomendo que se dê uma chance a Odisseia quando o filme for disponibilizado no streaming.
As discussões sobre as escolhas de elenco — em particular Lupita Nyong’o como Helena e Elliot Page como Sinon — ganharam destaque nas redes e na crítica. Parte dessa controvérsia está ligada às novas regras de representação da Academia: para ser elegível a Melhor Filme é preciso cumprir dois dos quatro padrões de diversidade e inclusão instituídos pela entidade, que envolvem tanto o que aparece em cena quanto composição da equipe, oportunidades profissionais e estratégias de distribuição e marketing. É compreensível ver nisso uma pressão sobre as indicações hollywoodianas.
Reconheço que há interpretações de elenco que poderiam ser consideradas mais adequadas do ponto de vista técnico ou do arquétipo tradicional dos personagens. Ainda assim, Helena e Sinon não alteram o núcleo dramático da obra. É nesse ponto que minha defesa de Nolan começa: ele joga conforme as regras da indústria, mas não submete sua visão criativa a elas.
Odisseia é, antes de tudo, um exercício sobre consequência moral. Nolan interessa-se menos por reproduzir Homero plano a plano e mais por indagar o que significa para um homem descobrir que vencer uma guerra não é sinônimo de ter agido corretamente. Essa pergunta atravessa o filme e transforma o herói épico em alguém perseguido pela própria violência.
Na carreira do diretor há um traço notável: a capacidade de transformar temas complexos — tempo, memória, física, culpa — em grande cinema de público. Títulos como O Cavaleiro das Trevas Ressurge ultrapassaram US$ 1 bilhão em bilheteria, Oppenheimer aproximou-se dessa marca, e Odisseia já supera US$ 1,6 bilhão mundialmente. Nolan não apenas faz blockbusters caros; ele faz o público pagar para pensar durante o espetáculo.
Daniel Mendelsohn, classicista e tradutor recente da Odisseia, descreveu o Odisseu de Nolan como “atormentado pela culpa” — comparação que o aproxima de protagonistas de filmes anteriores do diretor, como Memento e Oppenheimer, mais do que do herói homérico tradicional. Essa aposta na psicologia e na responsabilidade moral é, para mim, a transformação mais interessante e legítima da adaptação.
Uma adaptação cinematográfica gera uma obra nova. Pode e deve ser comparada à fonte, mas também precisa ser avaliada por suas intenções próprias. Críticos como Richard Brody acusam Nolan de modernizar Homero em demasia — uma crítica plausível, já que Nolan faz exatamente isso deliberadamente. Justin Chang, também na New Yorker, destaca que a lei de Zeus — o dever de respeitar estrangeiros e hóspedes — é invocada repetidamente como princípio estruturador do filme.
Partindo do código moral grego, Nolan desloca o centro da narrativa: o retorno do guerreiro deixa de ser apenas uma prova de excelência e astúcia e passa a ser um processo de reconhecimento do sofrimento causado. A famosa astúcia de Odisseu, simbolizada pelo cavalo de Troia, vira ponto de crise ética: a vitória obtida por engano ou sem dar ao inimigo a mesma chance de preparação constitui motivo para a culpa do protagonista.
Além disso, o filme reconfigura aspectos do personagem clássico: as infidelidades de Odisseu são praticamente suprimidas e a relação com Penélope assume papel central na sua identidade. A família, então, deixa de ser apenas destino e torna-se motivo — aquilo que confere sentido à sua luta e ao seu arrependimento.
Essas escolhas trazem para a narrativa elementos de uma sensibilidade moral mais próxima da tradição cristã, sem necessariamente desqualificar a ética grega antiga. Nolan não elimina o universo homérico; ele o interroga a partir de preocupações contemporâneas sobre responsabilidade, empatia e custo da vitória.
Obviamente há espaço para discordar. Mendelsohn vê a imposição de valores estranhos a Homero; Brody lamenta a perda de traços que definem o mundo homérico. Mas uma adaptação que só ilustrasse a fonte seria, no limite, uma reprodução sem debates. O mérito — e o problema — de Nolan é justamente seu atrevimento ao discutir com Homero.
Adaptar uma obra de quase três mil anos implica interpretar o que ela representa para nós hoje. Nesse sentido, creio que Nolan oferece uma resposta elegante e cinematograficamente presenteável.
Não pretendo convencer os que discordam; proponho apenas um diálogo. Se você já viu o filme e tem outra leitura, compartilhe nos comentários. Se ainda não assistiu, vale aguardar o lançamento no streaming e formar sua própria opinião.
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