Economia

PF descreve ‘linha de montagem’ digital do Banco Master para forjar R$ 7,15 bilhões em consignados

Relatório pericial da Polícia Federal aponta uso de banco de dados, mala direta do Word, códigos em C#, edição de PDFs e assinaturas digitais para montar dossiês atribuídos à Tirreno e repassados ao BRB

Redação Portal Web Dicas 5 min de leitura Economia

A Polícia Federal concluiu, em relatório técnico-pericial, que o Banco Master organizou um processo sistemático para produzir e alterar documentos usados como suposta prova de operações de crédito consignado atribuídas à Tirreno Consultoria e comercializadas ao Banco de Brasília (BRB).

O que a perícia encontrou

O relatório foi elaborado a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do banco — arquivo intitulado “Investigações internas – Banco Master” — com 30 slides que documentam atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025. Segundo a PF, a montagem combinava dados reais de clientes, ferramentas de escritório e programação para criar dossiês que simulavam a existência de carteiras de crédito.

  • Base de dados e extração: registros de operações antigas foram extraídos dos sistemas internos e organizados em planilhas (por exemplo, arquivos como cpf_cessao.csv, consulta Contratos_Henrique_Dados.sql e Dados_cessão.xlsx).
  • Geração massiva de documentos: a mala direta do Microsoft Word foi usada para produzir procurações em lote — a perícia identificou a geração de 2.700 procurações em 20 de junho de 2025.
  • Tratamento de assinaturas e PDFs: houve desenvolvimento de rotinas em C# para separar páginas de assinatura de PDFs originais; foram identificados lotes de páginas de assinatura (um arquivo compactado chamado erros-whatsapp.zip continha 1.833 PDFs com páginas isoladas).
  • Assinaturas digitais e contradições: Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) foram assinadas digitalmente com o certificado corporativo do banco e com certificado individual de um empregado, mas os registros criptográficos mostraram que muitas assinaturas ocorreram em 2025, mesmo quando a data impressa no corpo do documento era anterior.
  • Remoção de rastros: quando campos revelavam origem ou cronologia (datas e horários), eles foram apagados ou editados em PDFs para tentar ocultar a produção recente dos documentos.
  • Montagem final: peças (CCBs, procurações, termos de consentimento e comprovantes) eram reunidas em um único PDF por operação usando ferramentas como PDF24 e organizadas em pastas de rede com nomes como Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras.

Exemplos apontados pela perícia

A perícia descreve discrepâncias entre datas escritas nos documentos e os carimbos digitais das assinaturas. Em um exemplo citado, uma CCB trazia no corpo a data de 21 de janeiro de 2025, enquanto o registro criptográfico da assinatura digital mostrava que o arquivo foi assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s. Outro caso identificado foi o Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal, cuja data original — 24/02/2023 às 13:05 — foi removida visualmente em edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15h26; contudo, vestígios digitais permitiram reconstruir a cronologia.

Como funcionava a “linha de montagem”

  1. Extração de dados reais (SQL, banco de dados, Excel) para servir de base.
  2. Preenchimento automático de modelos em Word por meio de mala direta, permitindo a produção em massa de procurações.
  3. Separação automática de páginas de assinatura por programas em C#.
  4. Assinatura digital de lotes de CCBs pelo Adobe Acrobat com certificados corporativos e individuais.
  5. Edição de PDFs e imagens para remover datas, horários e outros indícios da origem.
  6. Reunião das peças em um único dossiê (PDF24) e armazenamento em pastas de rede específicas.

Quem aparece nas evidências

O relatório relaciona várias pessoas do Banco Master e descreve papéis específicos na operação documental. Entre elas:

  • Daniel Vorcaro — proprietário do Banco Master; em 12 de junho de 2025 pediu a Alberto um “kit dos 300 com assinatura digital”.
  • Alberto Felix de Oliveira Neto — diretor; interlocução com Vorcaro e com a auditoria externa.
  • Fabrizio Pereira Alencar — coordenador de Controles (Back Office); distribuía tarefas e coordenou força‑tarefa de assinaturas.
  • Allan da Silva Machado — gerente de Operações I (Back Office); gerou 2.700 procurações por mala direta, pediu a exclusão de datas e reuniu documentos em PDFs.
  • Vinicius Lucas Trentino — analista de Projetos Sênior (TI); extraiu CPFs e exportou planilhas (envio de Dados_cessão.xlsx em 3 de julho, às 16h57).
  • Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. — profissionais de TI envolvidos no desenvolvimento de ferramentas.
  • Moacir Lourenço da Silva Junior e Romy Goerck Gentina Klenquen — operacionais acionados para editar componentes dos arquivos, como remover datas ou ajustar comprovantes bancários.
  • Anderson Juliano Caspinelli Garcia — enviou o arquivo com 1.833 PDFs contendo páginas de assinatura isoladas.

Tirreno, BRB e valores

Segundo a Polícia Federal, a Tirreno Consultoria funcionou como empresa de fachada, criada com R$ 100 de capital social, e serviu para formalizar cessões fictícias de crédito consignado no total de R$ 7,15 bilhões que teriam sido vinculadas ao Banco Master e, em sequência, negociadas com o BRB.

Tentativas de justificar inconsistências e atuação da auditoria

As mensagens apreendidas mostram que, diante de questionamentos da auditoria da Deloitte, a orientação interna era atribuir discrepâncias a “erro operacional na seleção”. Em 23 de junho, Fabrizio comunicou a Alberto que a Deloitte estava cobrando documentos; Alberto orientou que eventuais problemas fossem justificados como falha na seleção dos arquivos.

Alterações também em comprovantes bancários

A perícia aponta tentativas de editar comprovantes de transferências por SPB e PIX para remover informações que vinculavam os comprovantes às operações originais — elementos como o evento, o número do contrato e o histórico eram alvo das edições. Em conversas, operacionais admitem que a alteração manual de milhares de comprovantes era impraticável, o que expôs limites da operação em escala.

Conclusão técnica da PF

O laudo pericial da Polícia Federal descreve uma cadeia organizada de produção e edição de documentos cujo objetivo, segundo o material, era sustentar documentalmente a existência de uma carteira de consignados atribuída à Tirreno. Mesmo com edições visuais, a perícia digital identificou vestígios que permitiram reconstituir a sequência de produção e assinatura dos arquivos.

O relatório integra as investigações em curso da Polícia Federal; o trabalho descrito na apresentação interna foi um dos elementos que embasam as apurações sobre a negociação das carteiras e sobre as providências internas tomadas na área de tecnologia e operações do banco.

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1 Comentário

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