A Polícia Federal identificou uma operação interna no Banco Master destinada a fabricar e formatar dossiês de contratos de crédito consignado atribuídos à Tirreno Consultoria e depois transferidos ao Banco de Brasília (BRB). Segundo o relatório técnico-pericial, a estrutura combinava dados reais de clientes, ferramentas de escritório, programação e edição de PDFs para dar aparência de legitimidade a cessões que, na avaliação da PF, eram fictícias e somavam R$ 7,15 bilhões.
Como funcionava a montagem dos documentos
O material apreendido na área de tecnologia do banco — um arquivo de 30 slides intitulado “Investigações internas – Banco Master” — descreve etapas realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025. A PF relacionou as seguintes práticas:
- extração de dados verdadeiros de clientes (nome, CPF, data de nascimento, nome da mãe) a partir de consultas internas (SQL) e planilhas;
- produção em massa de documentos, com uso da mala direta do Microsoft Word para gerar procurações automaticamente — 2.700 procurações foram produzidas em lote no dia 20 de junho de 2025;
- desenvolvimento de programas em C# registrados no repositório do banco para manipular PDFs, incluindo rotina para extrair apenas a segunda página (a de assinatura) de arquivos originais;
- reaproveitamento de páginas de assinatura: a perícia localizou um arquivo compactado chamado erros-whatsapp.zip com 1.833 PDFs contendo páginas de assinatura isoladas;
- assinatura digital em lotes de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) pelo Adobe Acrobat Reader, usando o certificado digital corporativo do Banco Master e certificado individual do gerente Allan Machado;
- edição de PDFs para apagar ou esconder datas, horários e elementos que pudessem revelar a origem ou a cronologia das peças;
- junção das diferentes peças (CCB, procuração, termos) em um único arquivo PDF por operação, com uso do PDF24, e organização em pastas de rede chamadas “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”, “299 amostras” e “119 amostras”.
Exemplo de contradição entre datas e assinaturas
A perícia destacou que, em muitos casos, as datas exibidas no corpo dos documentos (que indicariam formalizações anteriores) não coincidem com os registros criptográficos da assinatura digital. Em um exemplo citado, uma CCB apresentava no texto a data de 21 de janeiro de 2025, mas o carimbo criptográfico da assinatura digital mostrou que o arquivo foi assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02:39.
Em outro caso periciado, o Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal trazia originalmente a data 24/02/2023 13:05; esse registro foi visualmente removido em edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15h26. A PF observa que a remoção gráfica não eliminou vestígios técnicos que permitiram reconstruir a cronologia.
Trechos das conversas e ações internas
Mensagens internas recolhidas na investigação mostram exemplos das rotinas e preocupações dos participantes:
- Em 2 de julho de 2025, às 14h05, Fabrizio Pereira Alencar (coordenador de Controles do Back Office) pediu via Microsoft Teams a Vinicius Lucas Trentino (analista de Projetos Sênior/TI) o levantamento de CPFs. Vinicius reuniu os CPFs no arquivo cpf_cessao.csv, executou a consulta Contratos_Henrique_Dados.sql e, no dia 3 de julho, enviou a planilha Dados_cessão.xlsx às 16h57.
- No dia 20 de junho de 2025 Allan da Silva Machado (gerente de Operações I – Back Office Conciliação) vinculou um modelo PROCURACAO Master.docx a uma base de dados e gerou 2.700 procurações por mala direta.
- Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. participaram do desenvolvimento de códigos em C# para manipular PDFs; Anderson Juliano Caspinelli Garcia enviou o arquivo com páginas de assinatura a Moacir Lourenço da Silva Junior.
- Em conversas sobre comprovantes bancários, Allan e Romy Klenquen discutiram a necessidade de remover, em escala, informações como o evento, número do contrato e histórico (por exemplo, referências a “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”), e Romy afirmou ser impossível editar manualmente 2.700 comprovantes.
Assinaturas, amostras e contato com a auditoria
Em 20 de junho foi organizada pelo coordenador Fabrizio uma força-tarefa de assinaturas: foram separados 675 CCBs para cada um dos quatro operadores responsáveis pela assinatura (Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma). Amostras dos arquivos finais também foram repassadas à cúpula do banco: em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, solicitou a Alberto Felix de Oliveira Neto um “kit dos 300 com assinatura digital”; minutos depois Alberto informou que providenciaria e foram enviados links com conjuntos de documentos.
A investigação indica ainda que a Deloitte, responsável por auditoria, cobrou esclarecimentos. Em mensagem de 23 de junho, Alberto orientou que, diante de questionamentos, a inconsistência deveria ser justificada como “erro operacional na seleção”.
O papel da Tirreno e o objetivo do esquema
Segundo a Polícia Federal, a Tirreno Consultoria atuou como empresa de fachada — criada com capital social de apenas R$ 100, sem sede nem funcionários — para formalizar cessões avaliadas em R$ 7,15 bilhões que teriam sido repassadas ao Banco Master e, posteriormente, negociadas com o BRB. O relatório pericial descreve que o objetivo das etapas digitais era transformar informações de operações reais e antigas em documentação que simulasse a existência de uma carteira de créditos consignados atribuída à Tirreno.
Conclusão da perícia
O laudo técnico da Polícia Federal conclui que a operação combinou ferramentas comuns de escritório (Word, Excel), programação (C#), edição de PDFs e assinaturas digitais para produzir, alterar e organizar documentos. Ainda que edições visuais tenham sido feitas para ocultar datas e outros indícios, a perícia digital identificou rastros — sobretudo a discrepância entre as datas exibidas nos textos e os registros criptográficos das assinaturas — que permitem reconstruir a sequência temporal das ações.
Autoridades responsáveis seguem investigando as responsabilidades e os efeitos patrimoniais das operações que envolveram o Banco Master, a Tirreno Consultoria e o repasse de carteiras ao BRB.
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