O Papa Leão XIV iniciou nesta sexta‑feira (25) uma visita de quatro dias à França em que colocou a inteligência artificial no centro de sua agenda e advertiu para os riscos de a tecnologia corroer traços fundamentais da condição humana.
Ao chegar a Paris, o pontífice — o primeiro papa nascido nos Estados Unidos, com 16 meses de pontificado — afirmou que o avanço da IA exige «educação em discernimento ético» para evitar que a sociedade acabe subordinada a um modelo em que as máquinas condicionem a vida cotidiana.
Durante a declaração no Palácio do Eliseu, Leão XIV expressou preocupação com a transformação da ciência e da tecnologia em empreendimentos guiados apenas pelo lucro, citando — entre os perigos — possíveis abusos como manipulação genética, prática de barriga de aluguel, comércio de órgãos e até a institucionalização do planejar a própria morte.
O papa também reafirmou os ensinamentos pró‑vida da Igreja e criticou iniciativas que permitem o suicídio assistido para pessoas com doenças incuráveis, referência feita dois meses após parlamentares franceses aprovarem uma medida sobre o tema.
A visita a três cidades francesas tem objetivos diversos: além de debater ética tecnológica, Leão XIV busca recuperar a imagem da Igreja no país após os escândalos de abuso. Em Lourdes, no sudoeste, o pontífice deverá se encontrar no domingo com sete vítimas de abusos cometidos por membros do clero. Um relatório de 2021 apontou que cerca de 330 mil crianças foram abusadas por religiosos e líderes leigos na França ao longo de sete décadas; desde então os bispos adotaram medidas de reparação e proteção, mas vítimas seguem cobrando responsabilização.
Na chegada ao aeroporto de Paris‑Orly, o papa foi recebido pelo presidente Emmanuel Macron e pela esposa Brigitte. Crianças cantaram e buscaram autógrafos; milhares de pessoas alinhadas pelas ruas ergueram celulares, bandeiras e cartazes ao longo do percurso até o Palácio do Eliseu.
Entre os compromissos previstos para a primeira parte da visita estão uma cerimônia religiosa na Catedral de Notre‑Dame — recentemente restaurada após o incêndio de 2019 — e um discurso aos funcionários da sede da UNESCO, órgão da ONU para a educação, ciência e cultura que enfrenta déficits orçamentários depois que os Estados Unidos se retiraram da agência em 2025.
O papa deve apresentar, na segunda‑feira (28), sua visão para o futuro da Europa. Questionado por jornalistas no avião sobre liberdade de imprensa e tentativas de restringir o acesso de veículos à Casa Branca, Leão XIV reiterou seu apoio ao direito da imprensa de cobrir eventos públicos.
O contexto francês também é lembrado pelo caráter secular do país: a laicidade está consagrada por lei desde 1905 e a identificação religiosa caiu nas últimas décadas. Segundo dados do INSEE, apenas 25% dos franceses entre 18 e 49 anos se declaravam católicos, contra 43% uma década antes, segundo levantamento citado durante a visita.
Ao longo da estadia, o pontífice visitará ainda Metz, perto da fronteira com a Alemanha, e o santuário de Lourdes. Autoridades e líderes locais da Igreja esperam que a agenda ajude a enfrentar a crise de confiança provocada pelos relatos de abuso e a dar uma mensagem de paz em um momento que, segundo o papa, exige tranquilidade e reflexão.
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