Por Guilherme Grandi — 10/09/2026 às 14:48
O faturamento da indústria de transformação caiu 2% em julho na comparação com junho, segundo levantamento divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) nesta quinta-feira (10). A entidade relaciona a queda ao desaquecimento da produção, ao alto endividamento das famílias e ao patamar elevado das taxas de juros.
No acumulado de janeiro a julho de 2026, o indicador de faturamento registra retração de 0,5% em relação ao mesmo período de 2025. Apesar dessa queda, as horas trabalhadas na produção tiveram aumento de 0,2% em julho, enquanto a Utilização da Capacidade Instalada (UCI) subiu ligeiramente de 77,3% para 77,4% no mês.
Em outra leitura da série temporal, ao comparar os sete primeiros meses de 2026 com igual período de 2025, as horas trabalhadas caíram 1% e a utilização do parque fabril recuou 0,8 ponto percentual. O emprego na indústria avançou apenas 0,2% em julho, acumulando queda de 0,6% no ano.
A massa salarial do setor apresentou crescimento de 0,2% em julho e registra alta acumulada de 0,6% desde janeiro. O rendimento médio ficou estável no mês, mas acumula alta de 1,2% nos sete primeiros meses do ano em comparação com 2025.
“O destaque nesse mês fica por conta do faturamento: houve uma queda de 2% na comparação com junho. O quadro geral não muda muito em relação ao mês anterior, até porque a maior parte dos indicadores teve uma variação muito pequena”, afirmou Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI.
Azevedo acrescentou que “a elevação da taxa de juros e o endividamento das famílias vêm diminuindo a demanda por bens industriais de uma forma geral”, o que ajuda a explicar a perda de receita observada no setor.
Complementando as informações da CNI, pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgada mais cedo mostra que o endividamento das famílias permaneceu em nível recorde: 82% em agosto. A inadimplência alcançou 29,9%, com maior pressão sobre os consumidores de menor renda.
Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, 85,1% declararam ter dívidas e 38,8% indicaram contas em atraso (ante 38,5% no mês anterior). Nesse segmento, a parcela que afirma não ter condições de quitar as dívidas subiu 0,5 ponto percentual, chegando a 18,3%.
O percentual geral de famílias endividadas completou sete meses seguidos em patamar recorde, permanecendo acima dos 78,8% registrados em agosto de 2025. A inadimplência geral avançou 0,1 ponto percentual no período.
Outro indicador de agravamento financeiro apontado pela CNC foi a elevação para 12,5% da parcela de famílias que afirmam não ter condições de pagar contas em atraso — o maior nível desde fevereiro. O grupo que se considera “muito endividado” chegou a 17,4%, enquanto os “pouco endividados” recuaram para 34,9%.
Em conjunto, os dados da CNI e da CNC apontam para uma indústria que perde faturamento em cenário de demanda enfraquecida, com famílias mais endividadas e dificuldade crescente para cumprir compromissos financeiros — fatores que, segundo analistas, podem reduzir a velocidade de recuperação do setor no curto prazo.
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