Em Cardiff, no País de Gales, os líderes políticos da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte assinaram nesta segunda-feira (14/09/2026) um memorando de entendimento exigindo que o governo do Reino Unido viabilize referendos de independência para suas respectivas populações.
O documento, assinado durante reunião considerada histórica, invoca o direito à autodeterminação e prevê também uma “cooperação mais estreita” entre os três governos, inclusive em matérias de carácter constitucional.
Participaram do encontro as seguintes lideranças:
- John Swinney — primeiro-ministro da Escócia e líder do Partido Nacional Escocês (SNP);
- Rhun ap Iorwerth — primeiro-ministro do País de Gales e líder do Plaid Cymru;
- Mary Lou McDonald — presidente do Sinn Féin (partido que atua na Irlanda e na Irlanda do Norte);
- Michelle O’Neill — primeira-ministra da Irlanda do Norte e líder do Sinn Féin naquele território.
O memorando reivindica que Londres autorize a realização de plebiscitos e aponta para a necessidade de coordenação entre as administrações regionais em temas constitucionais, num movimento que reforça a agenda independentista que ganhou força nos últimos anos.
Especialistas e observadores destacam que esta é a primeira vez na história moderna que partidos favoráveis à separação lideram simultaneamente as três nações celtas — fato impulsionado, em parte, pela vitória do Plaid Cymru nas eleições parlamentares de maio, evento que, segundo seus protagonistas, inaugurou uma nova etapa para o movimento de independência galês.
A iniciativa aumenta a pressão sobre o primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, que tomou posse como premiê em 20 de julho de 2026. Em agosto, Burnham afirmou que novos referendos de independência para a Escócia e a Irlanda do Norte estavam “fora de cogitação” e que sua prioridade era “unir as pessoas após as divisões criadas pelo Brexit”. Até a última atualização desta reportagem, o governo britânico não havia emitido uma posição oficial sobre o memorando assinado em Cardiff.
O contexto histórico também pesa: o pedido ocorre dez anos depois do Reino Unido concretizar o Brexit (2016), processo que intensificou debates sobre identidade, fronteiras e competências constitucionais dentro do reino.
Por razões constitucionais e políticas, Swinney, ap Iorwerth e O’Neill participaram do encontro na condição de líderes partidários, e não formalmente como chefes de governo, uma vez que Downing Street não reconhece reuniões intergovernamentais destinadas a tratar da independência das nações constituintes.
Do ponto de vista institucional, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte são países constituintes do Reino Unido com órgãos executivos e legislativos devolvidos; porém, o governo britânico mantém a soberania sobre o conjunto das quatro nações-membro, incluindo a Inglaterra.
O episódio também foi influenciado por declarações recentes no cenário internacional: durante visita à Irlanda no fim de semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou esperar que a unificação da Irlanda com a Irlanda do Norte “aconteça eventualmente” — comentário recebido por observadores como uma provocação ao governo britânico.
Analistas apontam que, se o Memorando de Entendimento levar à convocação de plebiscitos, haverá disputas jurídicas e políticas sobre competência e legitimidade, além de intenso debate público no Reino Unido e no exterior sobre as consequências econômicas, sociais e constitucionais de eventuais separações.
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