O controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, direcionou R$ 303 milhões a um fundo nas Bahamas com o objetivo declarado de financiar um projeto de extração de petróleo na Venezuela. A remessa transitou por uma cadeia de fundos e foi colocada sob a gestão da Mosaic, empresa que administra estruturas patrimoniais do grupo em paraísos fiscais.
Segundo documentos e extratos relacionados à operação, os recursos saíram do fundo Winery, administrado por uma gestora ligada a ex-sócio do Master, foram aplicados no Bourgogne e, em abril de 2024, repassados ao Accuvest, com sede nas Bahamas, sob gestão da Mosaic — a expectativa era que dali seguissem para a Venezuela.
O projeto investigado previa parceria com a venezuelana Saber Energia e uma empresa de Hong Kong chamada Atma. A prospecção em Caracas ocorreu no final de 2023, após redução parcial de sanções norte-americanas sobre o país, segundo registros de viagens e negociações envolvendo o grupo.
Empresários que fariam parte do investimento tomaram empréstimos com o Master para viabilizar a operação: Lucas Kallas contraiu R$ 250 milhões; o intermediário Pedro Mesquita recebeu R$ 10 milhões. Além disso, R$ 44 milhões oriundos do fundo Astralo 95 foram aplicados no Winery. Esses vínculos aparecem em movimentações e notificações trocadas entre as partes.
Com o agravamento da crise do Master, surgiram dúvidas sobre a prestação de contas do fundo. Em setembro de 2025, Kallas notificou a Mosaic pedindo a devolução dos recursos; em março de 2026 a Mosaic informou ter transferido US$ 58,1 milhões (aproximadamente R$ 299 milhões) para uma conta do Bourgogne, onde os valores permaneceram sem aplicação. Em junho de 2026 Kallas informou administradoras e credores que o dinheiro estava naquela conta e, sem obter a restituição, acabou entregando as cotas do Winery como forma de quitação da dívida junto ao fundo que havia adquirido seu crédito.
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) incluíram a Mosaic em comunicações sobre movimentações consideradas suspeitas: ao menos US$ 100 milhões em operações foram relacionados a contas da Mosaic, além de transferências de bancos como Bank of New York Mellon e Banco do Brasil Americas que indicam saques e repasses vinculados a pessoas e empresas associadas a Vorcaro.
Os repasses e a falta de transparência na aplicação dos recursos ocorrem num contexto em que o Banco Master foi alvo de investigação e teve liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025; a medida ocorreu na esteira da Operação Compliance Zero, que também levou à prisão do controlador do banco, medidas que motivaram ações do liquidante para recuperar ativos e responsabilizar administradores.
Desde a decretação da liquidação, o liquidante vem movendo ações para buscar bens e recursos ligados a Vorcaro e a empresas do grupo, enquanto investigações policiais e administrativas apuram supostas fraudes em operações com carteiras de crédito, cessões de dívida e uso de fundos como instrumento para realocar recursos. Essas apurações explicam parte da pressão por esclarecimentos sobre as transferências internacionais e sobre o destino final dos R$ 303 milhões originalmente destinados ao investimento petrolífero.
A operação envolvendo as Bahamas e a Mosaic integra um conjunto mais amplo de movimentações que autoridades e o liquidante do banco classificaram como indicativas de risco de dilapidação patrimonial e evasão de ativos, e que estão sendo mapeadas em processos judiciais e comunicações entre instituições financeiras e órgãos de controle.
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