Um estudo que avaliou 1.404 pessoas em 18 países ocidentais encontrou uma associação estatística entre declarar-se canhoto e situar-se mais à esquerda do espectro político — em média, cerca de meio ponto numa escala de dez pontos da direita à esquerda.
A pesquisa foi aplicada pela internet e incluiu países como França, Alemanha, Estados Unidos, Itália e Espanha; a amostra não é representativa por país e teve proporção elevada de participantes do Reino Unido, mas os autores relatam que o resultado persiste mesmo quando esse país é excluído da análise.
Um resultado-chave é que a associação desaparece quando a lateralidade é medida por observação do uso real da mão em tarefas diárias (escrever, cortar com tesoura, escovar os dentes, arremessar). Ou seja: o efeito foi detectado quando o participante se identifica como canhoto, não quando se mede objetivamente o predomínio do uso da mão esquerda — o que sugere que fatores de identidade simbólica têm maior peso do que uma explicação puramente biológica.
O vínculo entre autodeclaração como canhoto e posicionamento político mostrou-se mais forte em países latinos — como França, Espanha e Itália — onde as dicotomias “esquerda” e “direita” ocupam papel central no debate público. Esse padrão reforça a interpretação de que processos culturais e identitários influenciam a associação.
Os autores — Jérémie Bertrand (IÉSEG School of Management / LEM-CNRS), Caroline Perrin (pós-doutoranda na Comissão Europeia) e Laurent Weill (Universidade de Estrasburgo) — discutem três possíveis mecanismos para explicar o achado: (1) efeitos de “egotismo implícito”, em que semelhanças simbólicas influenciam preferências; (2) experiências sociais de minorias que favorecem valores de tolerância e proteção de grupos vulneráveis; e (3) hipóteses neurobiológicas relativas à organização cerebral dos canhotos. Os próprios resultados, porém, apontam mais para explicações identitárias do que para causas estritamente neurológicas.
Os pesquisadores destacam que o estudo não implica que todos os canhotos votem à esquerda — exemplificando que figuras políticas de orientação distinta também podem ser canhotas — e que a associação observada é estatística, não determinista. O trabalho se insere em um campo de pesquisa que examina como traços individuais e experiências sociais contribuem para preferências políticas, ao lado de estudos que relacionam personalidade e fatores hereditários com ideologia.
Os resultados abrem caminho para novas investigações sobre como sinais simbólicos e identitários pouco evidentes influenciam opiniões políticas e para estudos com amostras representativas que avaliem a força e as limitações desse efeito em diferentes contextos culturais.
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