Kratom: o que é a planta vendida em postos dos EUA que preocupa autoridades por efeitos semelhantes a opioides
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Kratom: o que é a planta vendida em postos dos EUA que preocupa autoridades por efeitos semelhantes a opioides

Erva do Sudeste Asiático entrou no mercado americano como 'suplemento' e, por não ser regulamentada pelo governo federal, está associada a intoxicações, dependência e alertas após mortes de universitários

Redação Portal Web Dicas • • 4 min de leitura • Mundo

Jeffrey Deaver, lenhador aposentado de 58 anos que mora no estado de Washington, passou a usar kratom há quatro anos para reduzir dores crônicas no quadril e no joelho, depois de não obter alívio com tratamentos convencionais enquanto aguardava cirurgias. Ele relata que iniciou com doses baixas e as aumentou até sentir a dor desaparecer, o que, segundo ele, lhe devolveu sono e capacidade de trabalhar.

O que é o kratom

O kratom é o produto das folhas de uma árvore nativa do Sudeste Asiático — encontrada em países como Tailândia, Malásia e Indonésia — e usado tradicionalmente na região em forma de chá por suas propriedades estimulantes. Compostos presentes na planta, como a 7‑hidroximitraginina, atuam em várias vias neuroquímicas e podem estimular a liberação de dopamina, o que explica parte de seus efeitos.

Como é consumido e por que virou preocupação

Na última década, o kratom ganhou espaço nos Estados Unidos como um suposto “suplemento”; desde aproximadamente 2016 passou a ser comercializado amplamente em forma de comprimidos, pó e extratos líquidos. Esses produtos podem ser encontrados facilmente em lojas de conveniência, postos de gasolina, estabelecimentos que vendem cigarros eletrônicos e lojas especializadas.

Especialistas alertam que, por ser classificado como suplemento em muitos casos, não há fiscalização federal padronizada sobre composição, pureza ou concentração de princípios ativos, o que dificulta estabelecer uma dose segura. Isso favorece variações entre lotes e a circulação de produtos sintéticos que imitam o kratom natural.

Efeitos, riscos e dependência

Em doses mais baixas, o kratom tem efeito estimulante, parecendo-se com a cafeína ou, em descrições médicas, com sensações próximas às da cocaína em algumas pessoas. Em doses elevadas, os efeitos assumem características de opioides: analgesia, sensação de euforia, retardo do esvaziamento gástrico e risco de sintomas de abstinência quando o uso cessa. Há relatos de alucinações e, em casos severos, de depressão do sistema nervoso central que pode levar a colapso cardiovascular e parada respiratória.

Profissionais que tratam dependência alertam para o potencial de tolerância rápida: usuários podem precisar aumentar a dose para obter o mesmo efeito, o que eleva o risco de efeitos adversos. Sintomas de abstinência e impactos sociais — perda de emprego, prejuízos em relacionamentos e gastos elevados com a substância — também têm sido observados em centros de tratamento.

Casos recentes e investigações

Autoridades americanas emitiram alertas após a descoberta de embalagens de kratom com investigadores em posse de dois estudantes da Universidade do Mississippi que morreram. As investigações não atribuíram oficialmente as mortes ao kratom, mas o achado reacendeu o monitoramento e os avisos sobre o produto.

Regulamentação e cenário legal

No nível federal dos EUA, o kratom não é regularizado como medicamento pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA), o que permite a sua comercialização em muitos estados como suplemento. A resposta regulatória tem sido descentralizada: 11 estados americanos proibiram o kratom — Alabama, Arkansas, Connecticut, Indiana, Kansas, Louisiana, Massachusetts, Dakota do Norte, Tennessee, Vermont e Wisconsin — e Massachusetts adotou uma ordem de emergência temporária em agosto de 2026.

Em 2016, a Agência de Combate às Drogas dos EUA (DEA) tentou classificar o kratom como substância controlada de Classe I, mas a iniciativa foi revogada alguns meses depois, após o Departamento de Justiça registrar muitos comentários públicos contrários.

Em outros países as regras variam: o Reino Unido proibiu o kratom; na Malásia, país onde a árvore é nativa, a venda e o consumo são proibidos pela Lei de Venenos de 1952. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não regula a substância, embora uma nota técnica de 2023 tenha recomendado incluí‑la na lista de plantas proibidas.

Por que especialistas pedem cautela

Profissionais de saúde e autoridades públicas ressaltam que, mesmo quando usuários relatam benefícios analgésicos ou redução temporária de sintomas de abstinência de opioides, a falta de controle sobre composição e dosagem torna o consumo arriscado. Há preocupação adicional com produtos contaminados, adulterados ou de origem duvidosa, vendidos como “naturais” e disponíveis em pontos de venda de fácil acesso.

Para quem busca alternativas para dor crônica ou para tratamento de dependência, especialistas recomendam procurar orientação médica e serviços de saúde qualificados antes de experimentar substâncias sem regulamentação comprovada.

Publicado em 27/09/2026.

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