O Conselho Municipal de Heidenau, cidade de cerca de 16,5 mil habitantes próxima a Dresden, aprovou na quinta‑feira (24) uma moção apresentada por vereadores da Alternativa para a Alemanha (AfD) e da União Democrata‑Cristã (CDU) que proíbe a colocação de novas placas em homenagem às vítimas do nazismo conhecidas como “pedras de tropeço” (Stolpersteine).
Segundo a deliberação, futuras homenagens deverão ser centralizadas em um memorial localizado no cemitério ao norte da cidade, em vez de serem instaladas nas calçadas em frente às últimas residências das vítimas. A administração municipal havia recomendado a rejeição de uma proibição ampla, argumentando que esta não é necessária para a criação de um memorial central.
As chamadas Stolpersteine são pequenas placas de latão, geralmente com cerca de 10 por 10 centímetros, fixadas em blocos de concreto na calçada para lembrar indivíduos perseguidos e assassinados pelo regime nazista. A iniciativa, idealizada pelo artista Gunter Demnig, é amplamente reconhecida como parte da cultura de memória do Holocausto na Alemanha.
Gunter Demnig rejeitou os argumentos a favor do veto e defendeu que as homenagens devem permanecer visíveis nos locais onde as vítimas viveram, porque isso ajuda a tornar a história palpável para as novas gerações. Ele também associou a decisão em Heidenau ao avanço eleitoral recente da AfD e acusou a CDU de ter abandonado seus princípios, dizendo que o partido “talvez devesse desistir do ‘C’ de cristão” no nome.
“Estou envergonhado”, disse nesta sexta‑feira o embaixador de Israel na Alemanha, Ron Prosor. “Quem apaga as vítimas do passado apaga o próprio passado.” Ele pediu uma barreira clara contra o antissemitismo, “seja da direita, da esquerda ou dos círculos islamistas”.
A ministra alemã da Educação, Karin Prien (CDU), qualificou a decisão de “escândalo” e advertiu que relegar memoriais da vida judaica a cemitérios tornaria os judeus “invisíveis mais uma vez”. Charlotte Knobloch, dirigente de uma associação judaica na Baviera, também criticou duramente o apoio da CDU local à moção, chamando a aliança com a AfD de inaceitável.
O Comitê Internacional de Auschwitz manifestou indignação: Christoph Heubner, vice‑presidente da entidade, afirmou que se trata de “uma tentativa transparente e desprezível de expulsar mais uma vez as vítimas nazistas de Heidenau da cidade” e classificou a aliança CDU‑AfD como um escândalo.
Representantes dos Verdes, como Felix Banaszak, condenaram a medida e defenderam esforços para manter viva a memória dos perseguidos e assassinados pelo regime nazista. Em Heidenau, a prefeita Conny Oertel (sem partido) posicionou‑se contra a moção e disse que o desacordo era sobre a forma de homenagem, não sobre a sua continuidade.
Politicamente, a decisão reacendeu o debate sobre o chamado “cordão sanitário” — a prática por meio da qual partidos tradicionais evitam cooperação formal com a AfD. O episódio ocorre enquanto a AfD aparece liderando pesquisas nacionais, à frente da CDU de Friedrich Merz, e em um momento em que a CDU vem registrando perdas em pleitos regionais: o partido teve resultados ruins na Saxônia‑Anhalt, em Berlim e em Mecklemburgo‑Pomerânia‑Ocidental, onde não alcançou a cláusula de barreira de 5% e ficou pela primeira vez sem representação estadual desde a reunificação.
O constrangimento em torno do tema também entra na disputa em Berlim, onde conservadores tentam armar coligação com SPD e Verdes. A direção da CDU tem usado episódios de antissemita vinculados a adversários para fortalecer seus argumentos — e, ao mesmo tempo, passa a ser cobrada sobre eventuais alianças locais com a AfD.
Acusações de antissemitismo foram dirigidas recentemente a setores da esquerda: na festa de vitória do partido A Esquerda em Berlim, um ativista com histórico de posturas antissemitas e o chefe de um clã ligado pela imprensa a crime organizado foram vistos entre os presentes. O deputado Ferat Kocak foi fotografado ao lado de Ibrahim Ibrahim; ele afirmou ter tirado “centenas” de fotos com apoiadores e que o evento era aberto ao público. Issa Remmo, citado na imprensa como líder do chamado “clã Remmo”, também esteve no local, e a copresidente do partido, Ines Schwerdtner, disse que, uma vez identificadas, as pessoas foram convidadas a se retirar.
Ferat Kocak e outros membros do partido negaram conivência com posições antissemitas; ainda assim, a situação complica negociações locais de coalizão. Bärbel Bas, copresidente nacional do SPD, afirmou que seria “muito difícil” governar com uma legenda em que “grande parte age de forma antissemita”.
O episódio em Heidenau reaponta tensões sobre memória histórica, combate ao antissemitismo e isolamento político da extrema‑direita — temas que seguem em foco no debate público alemão enquanto se aproximam eleições regionais e nacionais.
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