O despejo de Maricarmen Abascal, uma mulher de 87 anos que morava no mesmo apartamento de Madri há sete décadas, voltou os holofotes para a atuação da Urbagestión Desarrollo e Inversión SL — também conhecida comercialmente como Urbagesa — e para a gravidade da crise de moradia na Espanha.
O caso
Maricarmen, que se desloca em cadeira de rodas e recebia uma aposentadoria modesta, foi retirada do imóvel na quarta‑feira após anos de disputas judiciais. Ativistas montaram acampamento em frente ao prédio para tentar impedir a ação; na ocasião policiais desmantelaram uma concentração estimada em cerca de 400 pessoas.
A ONU pediu a suspensão do despejo e exigiu que as autoridades assegurassem uma alternativa habitacional adequada. O Relator Especial da ONU para o direito à habitação, Koldo Casla, criticou a decisão judicial e afirmou que medidas cautelares internacionais tinham solicitado a suspensão temporária do despejo; acrescentou que o juiz deveria ter evitado uma medida que poderia causar danos irreparáveis.
O primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, definiu a saída da idosa como uma “tragédia” inaceitável. Maricarmen foi internada no hospital e deverá passar a morar com parentes; seu apartamento permanece vazio, com pertences e memórias de 70 anos.
Quem é a Urbagestión e como ela opera
Constituída em outubro de 2005, no auge da bolha imobiliária espanhola, a Urbagestión descreve sua atividade como investimento em ativos imobiliários de diferentes usos — comercial, logístico, escritórios e residencial — com foco em aumentar o valor dos edifícios por meio de desocupação e reformas.
Com sede em Madri e filial em Valladolid, a empresa atua nacionalmente, mas consta em bases de informação empresarial como uma microempresa, com apenas sete funcionários. Fontes de inteligência financeira apontam ligação societária da Urbagestión com os empresários Ricardo Alonso Fernández e Fernando Alonso Fuentes.
No portfólio divulgado constam cerca de dez edifícios residenciais à venda, a maioria em Madri. Entre eles está um imóvel descrito no site como “vazio e para reformar” próximo à Gran Vía, avaliado em valor superior a US$ 14 milhões, segundo apuração de agências. A empresa também anuncia um prédio “com inquilinos”, observando que contratos atuais terminariam no ano seguinte e que muitos não seriam de longa duração.
Modelo de negócios e semelhança com fundos
A Urbagestión afirma ser de pequeno porte e pede que não a equiparem a grandes fundos de investimento. Especialistas, porém, afirmam que a lógica é semelhante: identificação de ativos com potencial de valorização, compra, desocupação, reforma e venda buscando retorno rápido.
Nos últimos 20 anos, fundos internacionais como Blackstone, Cerberus e gestoras financeiras de grande porte entraram com força no mercado espanhol e passaram a deter grande parte dos imóveis residenciais do país, contribuindo para a valorização dos preços.
O economista Raymond Torres, do centro de análises Funcas, destacou que a forte demanda e a expectativa de valorização tornam o mercado espanhol atraente para investidores externos, com a segurança de revenda e alta persistente de preços.
O contrato antigo e a escalada do aluguel
Maricarmen ocupava o apartamento desde que seus pais assinaram um contrato em 1956, no regime conhecido como “aluguel antigo” — contratos firmados na era franquista que, por regras especiais, passaram a vigorar com valores historicamente baixos e com possibilidade de transferência entre familiares.
Segundo o relato do caso, a empresa chegou a oferecer que Maricarmen comprasse o imóvel por cerca de US$ 290 mil, valor incompatível com a sua aposentadoria. Depois da aquisição do prédio pela Urbagestión — que sucedeu a compra anterior feita pela Renta Corporación em 2018, seguida da venda para a Urbagestión dois anos depois — o aluguel cobrado à idosa foi atualizado para cerca de US$ 3 mil mensais, contra os aproximadamente US$ 570 que ela pagava sob o contrato antigo.
A empresa argumentou que o regime do contrato histórico havia expirado e passou a exigir o valor de mercado.
Contexto: aumento de despejos e crise habitacional
O despejo de Maricarmen ocorre em um cenário de crescente pressão sobre o mercado de habitação na Espanha. O Conselho Geral do Poder Judicial registrou mais de 25 mil desocupações em 2025.
Especialistas e autoridades apontam fatores que pressionaram os aluguéis: oferta reduzida de moradias, concentração demográfica nas grandes cidades e o aumento de imóveis destinados a aluguéis turísticos de curta duração, que retiram unidades do mercado residencial.
A ministra da Habitação, Isabel Rodríguez, afirmou que o governo de coalizão tentou aprovar uma legislação para proibir despejos deste tipo, e acusou a Comunidade de Madri, governada pelo partido conservador, de facilitar a atuação de especuladores no setor.
Reações e desdobramentos
- Protestos: ativistas tentaram impedir a execução da ordem de despejo; houve confrontos e retirada do acampamento.
- ONU: pediu a suspensão e exigiu alternativa habitacional adequada.
- Governo: líderes políticos condenaram o episódio; debate sobre mudanças legais para proteção de locatários vulneráveis foi reaberto.
O caso de Maricarmen transformou‑se em símbolo das tensões entre modelos de investimento imobiliário e direito à moradia, reacendendo pressões por medidas públicas que limitem despejos e protejam contratos antigos e inquilinos em situação de vulnerabilidade.
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