Economia

Rivalidade EUA-China cria janela para Brasil ampliar exportações agrícolas e atrair investimentos, diz Marcos Troyjo

Economista aponta crescimento das vendas brasileiras à China, impacto do acordo Mercosul‑UE e necessidade de ajustes em infraestrutura e tributação para aproveitar oportunidade

Redação Portal Web Dicas 4 min de leitura Economia

O embate comercial entre Estados Unidos e China abriu oportunidades para que o Brasil amplie vendas ao exterior e capte recursos estrangeiros, afirma o economista Marcos Troyjo, ex‑presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS. Em entrevista durante o evento Money Week 2026, em Balneário Camboriú (SC), Troyjo detalhou áreas de crescimento e os entraves que precisam ser superados.

Segundo o economista, as exportações agrícolas do Brasil se aproximaram das dos Estados Unidos no último ano, totalizando US$ 169,2 bilhões — apenas US$ 2 bilhões a menos que os US$ 171 bilhões americanos, conforme dados do Departamento de Agricultura dos EUA e do Ministério da Agricultura do Brasil.

Troyjo descreveu o relacionamento econômico entre as duas potências como uma espécie de “guerra fria 2.0”, mas ressaltou a elevada interdependência comercial: “A corrente comercial entre Estados Unidos e China, mesmo hoje, com todo esse protecionismo, é de praticamente 1,8 bilhão de dólares a cada 24 horas”.

China: demanda crescente e deslocamento de fornecedores

O economista observou que, ao longo do processo de abertura chinesa iniciado em 1978, os Estados Unidos foram historicamente o principal fornecedor de alimentos à China, posição que o Brasil passou a ocupar nos últimos cinco anos. Ele atribui essa mudança à necessidade chinesa de garantir abastecimento para uma população estimada em 1,5 bilhão de habitantes e com renda em ascensão.

Na avaliação de Troyjo, a China tende a reduzir compras de alimentos de Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Europa, ao mesmo tempo em que amplia as aquisições de produtos brasileiros, reforçando a importância do agronegócio nacional.

Potencial de diversificação para os EUA e Europa

Além da China, Troyjo aponta que o Brasil ainda tem margem para ampliar vendas aos Estados Unidos: a participação brasileira nas importações americanas oscila entre 0,8% e 1,1%, indicador que, segundo ele, demonstra espaço para diversificar destinos das exportações, hoje concentradas na Ásia.

Outro fator que pode impulsionar as vendas brasileiras é o acordo entre Mercosul e União Europeia, em vigor desde 1º de maio deste ano. O tratado zerou ou reduziu tarifas para cerca de 5 mil produtos brasileiros. Nos dois primeiros meses de vigência, as exportações do Brasil à UE cresceram US$ 2 bilhões em relação ao mesmo período de 2025, alta de 26%, segundo levantamento da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). A agência projeta que o acordo pode aumentar as exportações brasileiras em até US$ 7 bilhões no total.

Troyjo relaciona parte dessa aceleração ao aumento do protecionismo norte‑americano, que teria motivado a União Europeia a buscar novas parcerias comerciais. Ele destaca a atratividade do mercado europeu: cerca de 450 milhões de habitantes e um PIB estimado em 15% a mais que o da China, apesar de ter aproximadamente um terço da população chinesa.

Infraestrutura: gargalo que vira oportunidade de investimento

O crescimento das vendas externas expõe um desafio estrutural antigo no país: a capacidade de escoamento. Troyjo cita deficiências em irrigação, armazenagem, portos e transporte ferroviário como obstáculos clássicos, mas avalia que a atual preocupação global com segurança alimentar e energética transforma esses gargalos em alvos atraentes para investidores internacionais.

Em números do governo federal, o setor de logística brasileiro poderia receber até R$ 300 bilhões em investimentos por meio de concessões de rodovias, ferrovias e portos. Entre 2023 e 2025, os leilões desses ativos resultaram em contratos que somaram R$ 262 bilhões.

Minerais críticos e a necessidade de reforma tributária

Troyjo também sinaliza oportunidade nos minerais críticos, insumos estratégicos para setores como tecnologia da informação, defesa e novos materiais. Ele lembra que possuir reservas não basta: mineração e refino demandam grande aporte de capital e prazo longo para maturação.

Um obstáculo apontado pelo economista é a carga tributária sobre atividades de agregação de valor: enquanto outros países aplicam alíquotas entre 18% e 19% nesse tipo de operação, o Brasil pode tributar em até 33%, o que, segundo ele, desestimula investimentos em refino doméstico. Para Troyjo, a maneira como esse entrave for resolvido definirá se o país ficará restrito a fornecer matérias‑primas ou se capturará parte maior do valor gerado pela nova corrida tecnológica entre Estados Unidos e China.

As considerações foram feitas por Marcos Troyjo no painel do Money Week 2026 em Balneário Camboriú (SC). Troyjo foi presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS e atuou como secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, cargo em que participou das negociações relacionadas ao acordo Mercosul‑UE.

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