Uma ordem judicial cumprida na manhã de 23 de setembro de 2026 resultou no despejo de Maricarmen, 87 anos, do apartamento de 92 m² em que viveu por sete décadas no bairro do Retiro, região central de Madri. A saída — feita em cadeira de rodas e depois em maca — mobilizou ativistas, artistas e autoridades e acendeu debate sobre o mercado de habitação no país.
O imóvel estava ocupado por Maricarmen com base em um contrato de locación antigua, modalidade de arrendamento assinada originalmente em 1956 pelo pai da família, no período do regime franquista (1939–1975). Depois do falecimento do pai e da mãe, o contrato foi sucessivamente transmitido até chegar à neta, que pagava mensalmente €500 por um apartamento localizado numa das zonas mais valorizadas da capital.
Venda do prédio e subida das cobranças
Em 2018 a família proprietária vendeu o edifício à Renta Corporación. Dois anos depois, em 2020, a empresa ofereceu a Maricarmen a possibilidade de compra por €247.000, proposta que ela disse não poder arcar. Ainda em 2020, Renta Corporación repassou o imóvel à Urbagestión, atual proprietária.
Segundo a defesa da idosa, a Urbagestión passou a exigir valores de aluguel atualizados: inicialmente €2.650 por mês; após negociações, a empresa teria aceitado €1.650 mensais. Mesmo esse montante superava a aposentadoria de Maricarmen, de €1.350 por mês, e por isso ela não conseguiu manter o novo patamar de pagamentos.
Processo judicial e tentativas de solução
Houveram anos de litígio para determinar se o contrato antigo poderia permanecer válido após a mudança de proprietário. O Supremo Tribunal da Espanha interpretou que, no caso em questão, o arrendamento não poderia ser prolongado indefinidamente por se tratar de uma segunda sucessão, o que abriu caminho para a ação da proprietária.
A execução da desocupação foi a quarta tentativa da comissão judicial — três datas anteriores já haviam sido marcadas pela Justiça. Na audiência e durante o cumprimento do mandado, centenas de apoiadores se concentraram no exterior do prédio, bloqueando entradas e escadas para impedir o despejo.
Beatriz Duro, advogada de Maricarmen: “Aqui vão passando a bola: ninguém assume a responsabilidade e todos dizem que é de outras pessoas.”
Protestos, assistência e apelos internacionais
Na noite anterior ao cumprimento da ordem, ativistas acamparam em frente ao edifício. Entre os manifestantes estavam figuras públicas do meio artístico, como o ator Carlos Bardem e a cantora Ana Belén. Pela manhã, a polícia isolou trecho da via e retirou manifestantes e jornalistas da entrada; participantes relataram confrontos e uso de spray de pimenta.
Maricarmen, que tem mobilidade reduzida e atesta 50% de incapacidade, saiu do imóvel em cadeira de rodas e depois foi levada de ambulância ao hospital Gregorio Marañón para um check-up. Ela recusou alojamento temporário oferecido pela Comunidade de Madri e foi para a casa de familiares.
Em junho, a Comissão de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU pediu a suspensão do despejo enquanto examinava o caso, ou que fosse garantida à idosa uma alternativa de moradia adequada. Fontes jurídicas informaram também que uma escritora se ofereceu anonimamente para cobrir a diferença entre os €500 pagos e os €2.650 cobrados inicialmente pela empresa, além de eventuais dívidas, mas a oferta teria sido recusada pela proprietária, segundo a defesa de Maricarmen.
O Ministério da Habitação informou que o organismo público de moradia CASA 47 se dispôs a comprar o apartamento, mas a Urbagestión recusou a proposta.
Isabel Rodríguez, ministra da Habitação: “Foi um dia muito triste e dramático.”
O contexto da crise habitacional
O episódio de Maricarmen ilustra tensões maiores no mercado imobiliário espanhol. Em agosto de 2026, o portal imobiliário Idealista registrou em Madri um preço médio anunciado de €23,3 por m² — alta de 5,1% em 12 meses. Em 2016 essa média era de €12,8 por m², um aumento acumulado superior a 80% em uma década.
Dados do Banco de Espanha apontam déficit de oferta: entre 2021 e 2025 teriam sido construídas 750 mil moradias a menos do que o necessário. Em 2025 foram formados cerca de 240 mil novos lares, enquanto somente 92 mil habitações foram incorporadas ao mercado, o que intensifica a pressão entre demanda e oferta.
O governo de coalizão liderado pelo primeiro‑ministro Pedro Sánchez tem responsabilizado repetidamente fundos e empresas de investimento imobiliário pela escalada dos preços e pela especulação. Especialistas, por sua vez, defendem que é preciso aumentar a construção de residências e revisar o quadro regulatório: a insegurança jurídica e a lentidão dos processos de despejo, que podem levar anos, acabam desestimulando proprietários a colocar imóveis para locação e também alimentam conflitos quando contratos antigos entram em disputa com novos proprietários.
O que permanece
O caso de Maricarmen reuniu apelos jurídicos, mobilização social e propostas de intervenção pública sem evitar, porém, a execução do despejo. A decisão judicial e a recusa da empresa em negociar certas alternativas colocaram em evidência os limites das soluções individuais diante de um problema estrutural de oferta, regulação e especulação no mercado de moradia urbano espanhol.
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