Criminosos vendem vídeos de abuso sexual infantil no Telegram por R$ 10; pagamentos são feitos por PIX e criptomoedas
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Criminosos vendem vídeos de abuso sexual infantil no Telegram por R$ 10; pagamentos são feitos por PIX e criptomoedas

Investigação localizou ao menos 35 links no TikTok que direcionam usuários a grupos, bots e chats privados no Telegram; Polícia Federal alerta que transações via PIX deixam rastros, apesar de uso de contas de terceiros

Redação Portal Web Dicas • • 5 min de leitura • Economia

⚠️ Aviso: esta reportagem contém informações sensíveis sobre abuso sexual infantil.

Por Darlan Helder — São Paulo e Brasília

Uma investigação identificou uma rede de anúncios que oferece pacotes de vídeos e imagens de abuso sexual contra crianças e adolescentes a partir de R$ 10, comercializados em grupos, canais e bots do Telegram. Plataformas de vídeo curto, principalmente o TikTok, são usadas como vitrine: ao menos 35 links foram localizados apontando interessados para o serviço de mensagens.

Como funciona o esquema

Os anúncios aparecem em publicações no TikTok sem referência explícita ao conteúdo; os comentários trazem códigos ou links com a palavra “invite” e um código que, quando inserido, libera uma página de pré-visualização no Telegram. Em outros casos, a negociação ocorre diretamente com bots ou por mensagens privadas dentro do aplicativo.

Os vendedores costumam enviar uma prévia por meio de vídeos que se autodestroem após a primeira visualização. Depois, fornecem uma chave PIX ou opções em criptomoedas (como bitcoin e ether). Após a confirmação do pagamento, os arquivos — às vezes em pacotes de gigabytes — são enviados na própria conversa ou liberam acesso a um grupo privado.

Preços e ofertas encontradas

  • Pacotes anunciados por valores que vão de R$ 10 a R$ 150.
  • Exemplos localizados: pacote de 3 GB por R$ 10; 15 GB por R$ 35; acesso anunciado como “vitalício” por R$ 20.
  • Em sites ligados aos grupos, preços em dólar também foram oferecidos: US$ 25 (aprox. R$ 130), US$ 17,50 (aprox. R$ 90) e US$ 11,99 (aprox. R$ 62).
  • Algumas plataformas incentivam usuários a compartilhar links no TikTok em troca de acesso gratuito a novos conteúdos, transformando compradores em divulgadores.

Uso de PIX e contas de terceiros

Investigadores da Polícia Federal ouvidos informam que o PIX tem sido usado por criminosos que acreditam estar mais seguros ao receber pagamentos por essa via. A prática comum é empregar contas de terceiros — “laranjas”, ex-namoradas ou até a conta de uma vítima ou familiar — para ocultar a origem do dinheiro. Em uma conversa registrada, um criminoso afirmou usar a conta bancária de uma “menina” e garantiu que a transação não seria rastreada; a PF diz que essa afirmação é falsa e que transferências eletrônicas deixam registros que podem auxiliar na investigação.

Em um anúncio verificado, a chave PIX usada era um e‑mail com final “@estudante.rs.gov.br”; a Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul informou que está em contato com as autoridades policiais para apurar o uso do domínio.

Riscos e rastreabilidade

Embora criminosos tentem ocultar a cadeia de pagamentos, as movimentações bancárias geram dados (como quem fez o pagamento) que podem ser cruzados pela polícia. Bancos também costumam sinalizar e bloquear operações atípicas realizadas de diferentes regiões ou com padrões suspeitos.

Resposta das plataformas

O Telegram declarou que proíbe a distribuição de material de abuso sexual infantil e informou ter removido mais de 339.760 grupos e canais relacionados a esse tipo de conteúdo em 2026. A empresa afirmou que usa moderação humana e verificação automática de mídias, comparando arquivos com bancos de dados de hashes (incluindo conjuntos da Internet Watch Foundation e denúncias de ONGs).

O TikTok informou que remove rapidamente postagens que promovam exploração sexual de menores, bane contas envolvidas e reporta casos a órgãos internacionais, como o NCMEC. A plataforma acrescentou que 99,8% dos conteúdos que violaram suas políticas sobre abuso sexual e exploração de jovens foram removidos de forma proativa no primeiro trimestre de 2026, segundo seu relatório de aplicação das diretrizes da comunidade.

Legislação e punições

Uma lei sancionada em 6 de agosto de 2026 endureceu as penas para crimes relacionados a conteúdo de violência sexual contra crianças e adolescentes. As principais mudanças:

  • Produção ou venda do material: pena de 4 a 10 anos de reclusão, além de multa.
  • Quem compra, possui ou mantém o conteúdo: pena de 3 a 6 anos de reclusão, além de multa.
  • A definição legal passou a classificar qualquer representação audiovisual envolvendo criança ou adolescente em atividade sexual explícita — real, simulada ou gerada por inteligência artificial — como “violência sexual contra criança ou adolescente”, em vez de usar o termo “pornografia”.

O projeto teve origem do deputado federal Osmar Terra (MDB‑RS) e foi aprovado pelo Senado em 7 de julho de 2026; foi sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 6 de agosto.

“Desde quem produz até quem vende e quem recebe, toda essa cadeia está passível de ser responsabilizada e deve ser responsabilizada por esse crime”, diz Ana Cláudia Cifali, do Instituto Alana.

Orientação para denúncias

Casos de violência infanto‑juvenil devem ser denunciados às autoridades competentes. As principais formas de denúncia são:

  • Polícia Militar: 190 (quando a criança está em risco imediato);
  • Samu: 192 (em emergências que demandem socorro);
  • Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres;
  • Qualquer delegacia de polícia;
  • Disque 100: denúncias anônimas sobre violações de direitos humanos;
  • Profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos etc.) têm obrigação de notificação compulsória em casos de suspeita — a notificação é encaminhada aos conselhos tutelares e à polícia;
  • WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656‑5008;
  • Ministério Público;
  • Videochamada em Língua Brasileira de Sinais (Libras): https://atendelibras.mdh.gov.br/acesso

O que muda na prática

Especialistas ouvidos destacam que a combinação de medidas legislativas mais duras, vigilância das plataformas e capacidade de rastreamento das transações financeiras aumenta as chances de responsabilização. Ainda assim, a dispersão das atividades por meio de redes sociais como o TikTok e a migração de vendas para bots e grupos fechados no Telegram mantêm o desafio de identificar e desarticular essas estruturas.

Autoridades recomendam que usuários denunciem imediatamente conteúdos suspeitos nas plataformas e procurem as delegacias especializadas para formalizar queixas, fornecendo capturas de tela, links e qualquer informação que ajude nas investigações.

Atualizado em 26/09/2026.

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