Os discursos na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas tornaram-se, em grande parte, um debate sobre o próprio futuro da entidade. Chefes de Estado e governo reservaram tempo nas suas falas para criticar a atuação da ONU, cobrar reformas ou defender a manutenção da organização diante de uma crise de credibilidade.
Críticas diretas e apelos por mudanças
O secretário-geral António Guterres, que abriu a assembleia em 22 de setembro de 2026, reconheceu que a arquitetura multilateral atual está defasada e defendeu reformas. Em tom semelhante, líderes com posições divergentes entre si foram além da análise e fizeram ataques públicos: o presidente argentino Javier Milei classificou a ONU como “inútil” e chegou a chamá‑la de “parasita”.
“Nossas instituições e sistemas de governança global continuam a refletir as realidades de poder e os interesses de uma era amplamente ultrapassada. Esse é o desafio central diante de nós”, afirmou António Guterres no púlpito da ONU.
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, iniciou seu discurso destacando a baixa recorde de credibilidade da organização. O presidente francês Emmanuel Macron acusou a ONU de permanecer “inativa” diante das mortes de civis na Faixa de Gaza, mas também pediu que os países não abandonem a instituição. Em sentido parecido, o presidente da Letônia, Edgars Rinkēvičs, e o presidente do Panamá, José Raúl Molino, defenderam a necessidade de uma ONU capaz de promover diplomacia e resolver conflitos.
O que está em jogo: financiamento, voto e o Conselho de Segurança
Fundada em 1945 e hoje reunindo 193 países, a ONU é a principal instituição multilateral do planeta. Ainda assim, a organização enfrenta hoje uma combinação de crise política e financeira: o governo dos Estados Unidos — responsável por mais de 20% do orçamento da ONU — reduziu repasses e cancelou programas desde que Donald Trump voltou à Casa Branca em janeiro do ano passado, segundo discursos e análises feitos durante a Assembleia.
Além do aperto orçamentário, representantes apontaram para limites institucionais que travam decisões, em especial no Conselho de Segurança. A necessidade de reforma desse órgão, que delibera sobre questões como intervenções e sanções, foi citada como prioridade por vários oradores. Guterres propôs a inclusão de países africanos entre os membros permanentes, ideia apoiada por líderes do continente, mas condicionada à concordância dos cinco membros permanentes com poder de veto — Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido — o que torna qualquer mudança difícil.
Reformas travadas e o papel da próxima liderança
Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM, avaliou que a assembleia revelou um momento de ruptura: embora o consenso seja de que a ONU “não funciona nos moldes atuais”, as tentativas anteriores de reforma enfrentaram resistência e pouco avanço.
“Tem um cenário que é de ruptura, de os Estados entenderem que não é mais capaz da ONU ser a organização que congrega esse processo. Mas o consenso é de que é preciso buscar uma reforma, mas também uma adaptação”, disse Denilde Holzhacker.
Guterres, à frente da organização há quase dez anos, afirmou que reformas são necessárias para que a ONU consiga responder às mudanças no sistema internacional. Ele deixará o cargo no fim deste ano; a definição do próximo secretário‑geral deve ocorrer nas próximas semanas. Para Holzhacker, caberá à nova liderança equilibrar interesses — sobretudo entre Estados Unidos e China, que cresce em influência financeira — e articular acordos que destravem mudanças estruturais.
O diagnóstico das vozes presentes
- Discursos variaram entre críticas severas à ineficácia da ONU e defesas da organização como instrumento imprescindível para a diplomacia coletiva.
- Houve apelos específicos por maior capacidade de mediação e atuação prática em crises humanitárias e conflitos armados.
- O consenso emergente na Assembleia foi menos sobre a necessidade da ONU existir e mais sobre a urgência de repensar sua forma e funcionamento.
Ao encerrar a sessão de abertura e ao longo dos debates, a mensagem recorrente foi que a sobrevivência da ONU depende menos de uma sentença sobre sua utilidade imediata e mais da disposição dos Estados-membros em renegociar regras, compartilhar poder e garantir financiamento estável para uma instituição que, desde 1945, tem sido a principal arena da diplomacia internacional.
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