Pesquisadores do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em colaboração com grupos da University of Michigan, Universidade Federal Fluminense (UFF), Fiocruz e do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), relataram que uma proteína do inhame conhecida como tarina apresenta potencial antitumoral quando nanoencapsulada em nanolipossomas.
O trabalho, descrito em material divulgado em 22 de setembro de 2026, parte do conhecimento tradicional sobre o uso do inhame para tratar várias condições e avança para testes laboratoriais que buscam transformar essa lectina vegetal em um composto com aplicação oncológica. A tarina foi isolada há mais de uma década e sua estrutura tridimensional foi determinada por esse grupo em 2008.
Em culturas celulares, a nanoformulação contendo tarina inibiu a proliferação de uma linhagem agressiva de câncer de mama e também mostrou efeito sobre uma linhagem de glioblastoma, tumor cerebral de prognóstico desfavorável. Nos ensaios reportados, a formulação reduziu a capacidade de migração das células tumorais e ativou vias de morte celular, como apoptose e autofagia, com efeitos dependentes do tempo de exposição (24 h e 48 h).
Para avaliar a capacidade de atingir tumores cerebrais, os pesquisadores montaram uma barreira hematoencefálica in vitro com células endoteliais humanas e observaram que cerca de 20% da formulação inicial atravessou essa barreira após 180 minutos, resultado apontado como promissor para otimização futura de entrega ao sistema nervoso central.
Um estudo proteômico dinâmico das células tratadas identificou mais de 2.000 proteínas e indicou alterações consistentes com estresse oxidativo inicial seguido, após 48 horas, por expressão de marcadores ligados à morte celular, inibição da angiogênese, migração e proliferação — evidências usadas pelos autores para mapear possíveis mecanismos antitumorais da tarina nanoencapsulada.
Além dos resultados in vitro, trabalhos pré-clínicos anteriores em camundongos imunossuprimidos mostraram que a administração de tarina na forma livre ajudou a recuperar medidores hematológicos após tratamento com ciclofosfamida, reduzindo anemia e leucopenia associadas à quimioterapia; esse efeito indica um potencial imunomodulador que pode reduzir efeitos adversos dos tratamentos convencionais.
Os autores ressaltam que os dados são de caráter pré-clínico, obtidos principalmente em culturas celulares, e que para avançar rumo a uma hipótese terapêutica serão necessários testes em modelos tridimensionais (esferoides), estudos em animais mais sofisticados e, posteriormente, ensaios clínicos em humanos.
O projeto recebeu apoio financeiro de agências de fomento regionais, incluindo recursos da FAPERJ, e envolveu estudantes de graduação, mestrado e doutorado nas etapas experimentais e analíticas do estudo.
Especialistas em bioquímica, nanotecnologia e farmacologia destacam que a combinação entre moléculas bioativas de origem vegetal e sistemas de entrega por nanocarregadores é uma estratégia em crescimento na busca por tratamentos mais seletivos e com menor toxicidade sistêmica; a tarina nanoencapsulada integra esse esforço científico, agora em fase de aprofundamento experimental.
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