Reposição de testosterona não é indicada automaticamente para homens acima de 40 anos, diz cardiologista
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Reposição de testosterona não é indicada automaticamente para homens acima de 40 anos, diz cardiologista

Terapia deve ser reservada a quem tem hipogonadismo confirmado; estudo TRAVERSE com mais de 5.000 participantes aponta segurança relativa para eventos maiores, mas mostra aumento de arritmias e outras complicações

Redação Portal Web Dicas • • 3 min de leitura • Saúde

O uso crescente de tratamentos à base de testosterona entre homens adultos não significa que todo homem com mais de 40 anos deva iniciar reposição hormonal. O cardiologista Fernando Rangel, do Hospital Pró-Cardíaco (Rede Américas), enfatiza que a terapia só é indicada quando há diagnóstico clínico de hipogonadismo — ou seja, sintomas compatíveis acompanhados de níveis persistentemente baixos do hormônio.

O critério usual para suspeita e confirmação inclui a presença de sinais como queda da libido, redução de ereções espontâneas, perda de pelos corporais ou infertilidade, associada a concentrações de testosterona total abaixo de 300 ng/dL em pelo menos duas amostras sanguíneas matinais. A decisão terapêutica deve considerar causas reversíveis e fatores de estilo de vida antes de iniciar a reposição.

As evidências sobre segurança cardiovascular ficaram mais claras com o ensaio clínico TRAVERSE, publicado em periódicos médicos de referência. O estudo randomizado incluiu mais de 5.200 homens entre 45 e 80 anos com hipogonadismo e risco cardiovascular, e não mostrou aumento do conjunto de eventos cardiovasculares maiores (morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC) com a terapia. Ainda assim, o grupo tratado apresentou maior incidência de fibrilação atrial, embolia pulmonar e lesão renal aguda, resultados que ressaltam a necessidade de seleção cuidadosa dos pacientes e de acompanhamento médico contínuo.

Por outro lado, benefícios da reposição, quando bem indicada, podem incluir melhora de sintomas restritos ao hipogonadismo, como ganho de libido e melhora de queixas sexuais — efeitos descritos em análises do próprio TRAVERSE e de seus subestudos. Esses ganhos aparecem com mais consistência em homens com deficiência comprovada do hormônio.

Além da indicação criteriosa, o acompanhamento clínico durante a terapia é obrigatório: avaliação prostática e monitoramento de PSA, revisão de fatores de risco cardiovascular e exames periódicos para detectar possíveis eventos adversos. Pacientes com suspeita ou diagnóstico de câncer de próstata não devem receber reposição sem avaliação e deliberação multidisciplinar.

Resumo dos principais mitos esclarecidos por especialistas:

  • “Todo homem com mais de 40 anos precisa repor testosterona” — Mito. A queda hormonal com a idade é comum, mas nem sempre constitui doença; a terapia é indicada apenas após confirmação laboratorial e clínica.
  • “A reposição aumenta, necessariamente, risco de infarto ou AVC” — Parcialmente mito. Em homens com hipogonadismo e risco cardiovascular, o TRAVERSE não mostrou aumento do composto de eventos maiores, mas sinalizou maior ocorrência de arritmias e outras complicações que exigem vigilância.
  • “Testosterona eleva massa muscular em qualquer pessoa” — Mito. Efeitos anabólicos são mais claros em quem tem deficiência; o uso em indivíduos com níveis normais tem indicação médica inexistente e pode ser prejudicial.
  • “Reposição causa câncer de próstata” — Mito simplificado. As evidências não mostram aumento claro do risco quando a terapia é aplicada em homens selecionados, mas é necessária avaliação e monitoramento prostático antes e durante o tratamento.
  • “Cansaço isolado já justifica terapia” — Mito. Sintomas inespecíficos como fadiga podem ter múltiplas causas; a presença de sinais mais específicos de deficiência androgênica é o que orienta investigação e indicação.

Em síntese, especialistas recomendam avaliação médica completa (endocrinológica, urológica ou cardiológica, conforme o caso), confirmação laboratorial e monitoramento durante a terapia quando esta for indicada. A decisão deve ponderar benefícios clínicos esperados e os riscos apontados por estudos clínicos recentes.

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