Desde abril de 2022, centenas de mulheres em El Salvador têm transformado a incerteza em mobilização. Em vez de cavar cemitérios, como buscadoras em outros países, elas vasculham corredores de delegacias, portas de penitenciárias e espaços administrativos em busca de notícias sobre filhos, maridos e irmãos detidos no âmbito do estado de exceção implementado pelo governo de Nayib Bukele.
A dor que se repete
Casos como o de Marcela Alvarado ilustram a rotina: seu filho, José Duval Mata Alvarado, foi detido por militares em 18 de abril de 2022 na comunidade rural de La Noria, em Jiquilisco, quando voltava do trabalho como motorista de trator. Mesmo alegando inocência, ele foi acusado de “associações ilícitas” sob as regras que vigoraram com o decreto de emergência. Marcela afirma que, desde a apreensão, não obteve notícias confiáveis sobre o paradeiro do filho; apesar de duas decisões judiciais que ordenaram sua soltura, as autoridades continuam a informar que ele permanece no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot).
Outro relato frequente é o de Liliana Urías, cuja família foi atingida em série: Merlon Urías, então com 19 anos e trabalhador da cana-de-açúcar, foi levado em 30 de março de 2022; poucos dias depois, o marido dela, Israel Reyes, também foi preso. Liliana mantém visitas mensais a estabelecimentos prisionais — entre eles La Esperanza (conhecida como Mariona) e a penitenciária de Izalco — e acompanha transferências quando consegue identificá‑las, em geral por fotos ou vídeos oficiais.
Escala das detenções e mudanças legais
O decreto de emergência que suspendeu direitos constitucionais virou a espinha dorsal da política de segurança do governo, com prorrogações mensais por mais de quatro anos. Uma reforma da Lei contra o Crime Organizado alongou a detenção provisória e abriu caminho para julgamentos coletivos, com processos que podem reunir até 900 acusados.
Organizações de direitos humanos objetam que esses procedimentos geram detenções arbitrárias e comprometem o direito de defesa e o acesso à justiça. As autoridades de segurança do governo afirmam que as operações diminuíram fortemente os homicídios e que houve poucos erros, citando a libertação de cerca de 7 mil pessoas; críticos e ativistas lembram, porém, que o número de detidos processados em massa — cerca de 91 mil — expõe um sistema judicial sobrecarregado.
Casos em comunidades remotas
Em julho de 2022, Cristian Donely Ruiz Pineda foi detido em sua casa na ilha Espírito Santo. A esposa, Carolina Martínez, relata que a comunidade tem cerca de 350 famílias e que 17 pessoas permanecem presas desde então. Em Cuisnahuat, no departamento de Sonsonate, os irmãos Marcos Neftaly (militar em atividade, 24 anos) e David Ernesto Coreto Martínez (31 anos, trabalhador agrícola) foram detidos em maio de 2022; a irmã Leyla Arely sabe apenas que os dois passaram por Mariona e foram transferidos para a penitenciária agrícola de Santa Ana, a cerca de 62 km de sua casa.
Um coletivo que nasceu nas filas
As mulheres que se encontravam sistematicamente em portas de prisões e tribunais começaram a se organizar espontaneamente na região do Baixo Lempa, no sul do país. O movimento expandiu‑se por outras regiões e hoje reúne centenas de integrantes sob o nome Mulheres pela Liberdade. O coletivo entrega documentação a órgãos como a Direção Geral de Centros Penitenciários, a Procuradoria de Direitos Humanos e a Assembleia Legislativa, organiza caminhadas — inclusive uma marcha de três dias até a Casa Presidencial — e promove concentrações mensais na praça central de San Salvador, onde permanecem sentadas nas grades da catedral segurando cartazes com fotos de parentes detidos.
O peso financeiro e social sobre as mulheres
Além do impacto emocional, as famílias enfrentam dificuldades econômicas. Muitas dependiam do familiar detido como principal provedor; as responsáveis pelos lares afirmam arcar com deslocamentos e com o chamado “pacote” mensal entregue aos presos, que custa, em média, cerca de US$ 100 (aproximadamente R$ 515). Há relatos de mães que deixam de ir ao mercado ou de pagar despesas básicas para conseguir reunir o valor exigido nas visitas.
Um relatório da organização Cristosal, publicado em 2023, já apontava que as mulheres estão entre os grupos mais afetados pelas políticas de segurança anteriores ao estado de exceção — cenário que, segundo ativistas do coletivo, só se agravou desde 2022. Dados macroeconômicos do Fundo Monetário Internacional mostram que a economia salvadorenha registrou crescimento real de 3,9% em 2025 e que a previsão para 2026 é de cerca de 4,5%, mas essas taxas não se traduziram uniformemente em melhoras para os setores mais empobrecidos atingidos pelas detenções.
O objetivo do coletivo
As integrantes das Mulheres pela Liberdade buscam interromper o que definem como silêncio institucional sobre os detidos: exigem informação clara sobre localizações e transferências, o direito a visitas familiares regulares e julgamentos justos e individuais, em vez de processos coletivos. Para muitas, o grupo tem função prática e também terapêutica — compartilhar despesas de viagem, orientar sobre trâmites e, sobretudo, reduzir a solidão diante de uma experiência que se repete em dezenas de comunidades rurais e urbanas.
Como dizem as mulheres que lideram e participam das ações, a união tem servido para manter visível a situação dos detidos e evitar que as pessoas “sejam esquecidas em alguma cela”. A mobilização continua mensalmente nas ruas e nas portas das instituições estatais, em busca de respostas e de justiça individualizada para cada caso.
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