A menos de um dia da sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) prevista para terça-feira, 15 de setembro de 2026, aliados do ministro Alexandre de Moraes intensificam ações processuais e interlocuções nos bastidores para tentar postergar ou inviabilizar a análise sobre a abertura de investigação contra ele.
As estratégias em discussão incluem pedidos de vista que suspendem temporariamente a votação, contestações sobre a composição do plenário, pedidos de sigilo e tentativas de agrupar em um único julgamento processos que envolvem Moraes e o ministro André Mendonça. Essas manobras colocam em dúvida se o mérito sobre eventuais crimes atribuídos a Moraes será apreciado na sessão.
Pedido de vista: argumento do volume de provas
Uma das linhas de atuação mais prováveis é o pedido de vista, que daria aos ministros prazo adicional para examinar o material do processo. O argumento para a medida ganhou força depois que, desde sexta-feira (11/09), houve um aumento no número de documentos disponibilizados, e a Polícia Federal entregou, nesta segunda-feira (14/09), a Cristiano Zanin e a Gilmar Mendes a íntegra do conteúdo extraído do celular do ex‑banqueiro Daniel Vorcaro, apreendido em novembro do ano passado.
Até então, as decisões de integrantes do tribunal vinham se apoiando em relatórios da própria PF sobre esse material. Para a doutora em Direito Público Clarisse Andrade, o acréscimo de documentos às vésperas do julgamento é um fundamento plausível para solicitar mais tempo de análise.
O constitucionalista Alessandro Chiarottino ressalta que a entrega do material bruto na véspera pode ser usada como justificativa formal para suspender a votação: segundo ele, seria difícil concluir se há elementos para abrir investigação sem uma análise completa das novas provas.
Impugnações à composição do plenário
Outra frente acionada por aliados de Moraes envolve questionamentos sobre a participação de ministros no julgamento. Há avaliação, segundo interlocutores ouvidos por fontes próximas ao processo, de suscitar a suspeição de Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, em razão de supostos vínculos de familiares com pessoas ligadas ao Banco Master.
Esse tipo de impugnação tem potencial para eliminar votos considerados favoráveis à investigação e, assim, alterar a balança do julgamento. Analistas observam que ministros como Kassio e Fux poderiam eventualmente votar com Mendonça, o que tornaria o placar mais desfavorável a Moraes.
Críticos da estratégia do ministro também lembram que outros nomes já mencionados nas apurações — como Dias Toffoli e Gilmar Mendes — poderiam, por sua vez, ficar impedidos de votar, dependendo do teor das informações levantadas.
Especialistas ouvidos afirmam que as relações apontadas vêm sendo negadas como motivo capaz de comprometer a imparcialidade dos magistrados. Ainda assim, André Marsiglia, constitucionalista, alerta que a retirada de integrantes do plenário pode alterar quorum e resultado da deliberação.
Debate sobre sessão fechada e risco de pressão interna
Discute‑se também a possibilidade de realizar a sessão a portas fechadas, sem transmissão ao público. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, ainda não definiu o formato; o plano divulgado até o momento prevê sessão aberta e transmitida a partir das 10h, mas esse cenário pode mudar nas horas que antecedem a reunião.
Juristas afirmam que um julgamento em sigilo reduziria a exposição dos magistrados diante de acusações diretas e de menções a outros integrantes da Corte. Há preocupação de que isso possa facilitar pressão interna para que ministros recuem em votos que poderiam ampliar o alcance da apuração.
Mais de 200 empresários, economistas, juristas e representantes da sociedade civil assinaram uma carta pública defendendo transparência e apoiando as medidas adotadas por Fachin para enfrentar a crise institucional.
Tentativa de julgamento conjunto com Mendonça e reação da Presidência do STF
Integrantes do grupo de apoio a Moraes também buscaram agrupar os casos relacionados a Alexandre de Moraes e André Mendonça em um único julgamento. Até agora, a iniciativa não prosperou: o presidente do STF, Edson Fachin, marcou a análise dos processos em datas separadas — Moraes no dia 15/09/2026 e Mendonça para 23/09/2026 — o que, segundo o jurista Luiz Augusto Módolo, constitui um obstáculo à estratégia de unificação.
Caso a tentativa de reunir as ações não avance, fontes consultadas dizem que a ala favorável a Moraes poderá recorrer novamente ao pedido de vista como forma de postergar qualquer decisão de mérito.
O ministro Moraes, por sua vez, tem questionado procedimentos atribuídos a Mendonça, alegando problemas na obtenção e no uso de informações. André Mendonça tem defendido a regularidade de sua atuação; desde que Fachin passou a conduzir procedimentos ligados à crise — inclusive o do Banco Master e outro sobre o INSS — as decisões de Mendonça têm sido reexaminadas pela Presidência do STF.
Fachin adotou medidas para reorganizar processos e evitar decisões contraditórias que pudessem produzir efeitos simultâneos sobre os mesmos fatos, reforçando a necessidade de coordenação institucional diante do conflito entre ministros.
Por que os casos de Moraes e Mendonça chegaram ao plenário
As condutas de Alexandre de Moraes e André Mendonça chegaram ao plenário do STF em consequência de acusações cruzadas resultantes dos desdobramentos do chamado caso Master. Moraes passou a ser alvo de pedido de investigação após mensagens atribuídas a ele e ao ex‑banqueiro Daniel Vorcaro colocarem em suspeita supostos favorecimentos ou interferências nas apurações.
Mendonça, relator de procedimentos relacionados ao caso, passou a ser contestado por Moraes com alegações que incluem abuso de autoridade, direcionamento das investigações e falhas na preservação de provas. Fachin decidiu que os dois episódios serão analisados separadamente, ao menos por ora.
Limitações regimentais e ineditismo do episódio
O episódio revela um desafio adicional: o Regimento Interno do STF não prevê de maneira detalhada todas as situações geradas por uma deliberação sobre a abertura de investigação contra um ministro. O Plenário é competente para julgar ações penais contra magistrados, mas a etapa em discussão nesta fase é pré‑investigativa — decidir se há elementos para instaurar uma apuração — e não um julgamento criminal definitivo.
Entre as lacunas apontadas está a ausência de norma clara sobre quórum necessário para autorizar a investigação de um ministro: o regimento não especifica se a decisão caberia à maioria simples, a maioria qualificada ou se haveria exigência de dois terços do Plenário.
Especialistas consultados descrevem o episódio como um momento inédito e de forte tensão institucional, em que procedimentos regimentais, decisões sobre impedimentos e pressão política se sobrepõem à rotina do tribunal.
Na prática, nas próximas horas estarão em jogo não apenas os elementos objetivos do processo, mas também decisões sobre a forma de condução do julgamento — abertas ou sigilosas — e sobre quem poderá votar, fatores que podem determinar se a Corte seguirá para avaliar o mérito da investigação contra Alexandre de Moraes.
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