Ar mais limpo acelera parte do aquecimento global e revela incertezas maiores sobre sensibilidade do clima
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Ar mais limpo acelera parte do aquecimento global e revela incertezas maiores sobre sensibilidade do clima

Queda da poluição por aerossóis reduz efeito resfriador; estudos recentes indicam que nuvens e maior sensibilidade podem tornar o aquecimento mais intenso do que estimado

Redação Portal Web Dicas 6 min de leitura Mundo

Por Justin Rowlatt

Medidas para limpar o ar — bem-vindas por seus benefícios à saúde — também retiraram do sistema climático um componente que vinha atenuando o aquecimento: os aerossóis de sulfato. A redução dessas partículas refletoras, liberadas pela queima de carvão e petróleo, deixou o planeta absorver mais luz solar, contribuindo para uma aceleração observada nas últimas décadas.

Nas redes sociais, o vice-líder do Reform UK, Richard Tice, afirmou que o ar mais limpo seria o principal responsável pelas recentes ondas de calor e chegou a sugerir que o dióxido de carbono não seria o causador dominante do aquecimento. A declaração é enganosa: o CO2 continua sendo o motor principal do aquecimento global. Ainda assim, a ideia subjacente de que a limpeza do ar altera o balanço energético da Terra corresponde a evidências científicas e merece atenção.

Os combustíveis fósseis emitem tanto gases de efeito estufa quanto dióxido de enxofre, que se transforma em aerossóis de sulfato. Essas partículas são muito pequenas e de alta refletividade — “brilhantes”, nas palavras do pesquisador Øivind Hodnebrog, do instituto Cicero, na Noruega — e refletem parte da radiação solar de volta ao espaço. Além disso, aerossóis favorecem a formação de nuvens mais claras e duradouras, o que aumenta ainda mais a reflexão da luz solar.

Campanhas de controle da poluição na Europa, na América do Norte e em outras regiões, como o programa de combate à chuva ácida adotado nos Estados Unidos no início dos anos 1990, e regras recentes para o setor de navegação, reduziram fortemente as emissões de enxofre. Num exemplo histórico, a iniciativa bilateral assinada em 1991 pelo ex-presidente dos EUA George H. W. Bush e pelo primeiro‑ministro canadense Brian Mulroney teve como objetivo reduzir a chuva ácida; esse tipo de política é parte do processo que vem limpando o ar desde então.

Ao contrário do dióxido de carbono, que permanece no sistema climático por séculos, os aerossóis duram dias ou semanas na atmosfera. Assim, quando as emissões de enxofre caem, o efeito resfriador desaparece quase imediatamente — como se tivéssemos limpado a poeira das janelas de uma estufa e aumentado a passagem da luz solar.

Estimativas dos cientistas indicam que essa perda do efeito resfriador já tem uma contribuição mensurável: o professor Piers Forster, da Universidade de Leeds e autor da avaliação mais recente do IPCC, calcula que a redução dos aerossóis pode acrescentar hoje cerca de 0,05 °C a 0,1 °C de aquecimento por década. Em comparação, os gases de efeito estufa estariam atualmente acrescentando cerca de 0,2 °C por década.

Mesmo explicando apenas parte da recente aceleração do aquecimento, os aerossóis não são a única peça do quebra‑cabeça. Pesquisadores como Reto Knutti, do Instituto Federal de Tecnologia (ETH) de Zurique, têm removido os sinais de variabilidade natural — como o El Niño — para isolar a tendência subjacente. “Fica muito claro que a velocidade do aquecimento aumentou”, disse Knutti, apontando que o desequilíbrio energético da Terra (a diferença entre a energia absorvida e a perdida para o espaço) praticamente triplicou nas últimas duas décadas, embora o valor exato varie conforme o intervalo analisado.

Parte desse aumento parece ligada a mudanças nas nuvens sobre os oceanos. À medida que algumas áreas oceânicas aquecem, a cobertura de nuvens baixas pode diminuir; como nuvens são muito mais reflexivas do que o mar, menos nuvens significam mais luz solar atingindo e sendo absorvida pelos oceanos, que, por sua vez, aquecem ainda mais. O físico climático Paulo Ceppi, do Imperial College London, afirma que esse ciclo de retroalimentação entre aquecimento e redução de nuvens de baixa altitude é provavelmente mais relevante do que a queda dos aerossóis para explicar a diminuição da cobertura de nuvens observada recentemente.

O papel das nuvens é, simultaneamente, um dos maiores pontos de incerteza nos modelos climáticos. Os diferentes modelos que os cientistas usam para projetar o futuro exibem sensibilidades climáticas distintas — isto é, reações diferentes a uma mesma quantidade de CO2. Knutti e colegas verificaram que os modelos que melhor reproduzem o aquecimento recente e o aumento do desequilíbrio energético tendem a ser aqueles que implicam maior sensibilidade climática. Em termos práticos, a análise sugere que, para o mesmo volume de emissões, o aquecimento pode ser cerca de 25% maior do que se pensava anteriormente.

Estudos independentes chegam a conclusões semelhantes. Uma pesquisa publicada no ano passado na revista Science também encontrou que modelos calibrados com as observações recentes projetam mais aquecimento do que os modelos com sensibilidade menor, e que modelos com projeções mais baixas tiveram dificuldade em reproduzir o aumento observado no desequilíbrio energético da Terra.

Os dados dos oceanos reforçam a preocupação: a Organização Meteorológica Mundial aponta que os oceanos se aqueceram com rapidez mais de duas vezes maior nas últimas duas décadas em comparação ao período entre 1960 e 2005. O calor acumulado nos oceanos é um indicador importante do excesso de energia no sistema climático.

Mas os cientistas pedem cautela. Forster lembra que as observações usadas para calibrar essas avaliações cobrem um período relativamente curto, que o registo por satélites é breve e que a variabilidade natural pode distorcer tendências quando analisada em escalas de uma ou duas décadas. As novas evidências não descartam as estimativas anteriores, mas ampliam o debate sobre incertezas cruciais — sobretudo aquelas ligadas às nuvens — que afetam projeções de longo prazo.

As implicações são claras: se o clima for de fato mais sensível do que as estimativas mais conservadoras sugerem, as mesmas emissões poderão aquecer o planeta mais do que o esperado. Com cada fração de grau adicional aumentam os riscos de eventos extremos — ondas de calor mais intensas, cheias, secas e incêndios florestais, como os registrados no ano anterior em regiões como Los Angeles.

Em síntese, a limpeza do ar não é a causa primária do aquecimento global — essa é a ação persistente dos gases de efeito estufa —, mas a redução dos aerossóis tem removido um tampão que, até recentemente, mascarava parte do aquecimento. Enquanto os cientistas trabalham para entender melhor o papel das nuvens e refinar a sensibilidade climática, a mensagem principal permanece: quanto mais cedo reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa, menores serão os riscos de aquecimento e seus impactos associados.

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