Um estudo publicado na revista Nature Reviews Biodiversity em 2026 mostra que o comércio ilegal de animais, plantas e fungos migrou em grande escala para plataformas digitais — de redes sociais a marketplaces. Entre os canais citados pelos autores estão Facebook, Instagram, TikTok, YouTube, eBay, Google, Alibaba e Shopee.
Durante um monitoramento de seis semanas em 280 plataformas, a equipe internacional liderada pelo professor Enrico Di Minin, da Universidade de Helsinque, registrou 33.006 exemplares de espécies protegidas pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES). Do total identificado, 54% correspondiam a animais vivos e 46% a partes ou produtos derivados.
Em outro levantamento, realizado em 2025 ao longo de seis semanas em quatro redes sociais, os pesquisadores detectaram mais de 1.600 primatas anunciados para venda. A lista de organismos afetados inclui aves, serpentes, rãs, orquídeas e cactos, sinalizando um mercado amplo, com grande variedade de espécies e difícil de rastrear.
Por que a internet favorece o comércio ilegal
Os autores apontam fatores que facilitam a expansão do tráfico online: percepção reduzida de risco entre vendedores e compradores, regulamentação insuficiente nas plataformas, anonimato e a velocidade com que transações podem ser concluídas na internet. “As operações podem ser realizadas com rapidez e em escala muito superiores às dos circuitos tradicionais”, diz o coautor Neil D’Cruze, da Universidade Metropolitana de Manchester.
Segundo o professor Enrico Di Minin, o comércio ilegal de fauna e flora silvestres online “se estende por inúmeras plataformas, incluindo as redes sociais mais populares, e representa uma ameaça crescente e em constante evolução para a conservação da biodiversidade”.
Impactos locais e exemplos
A África é citada pelos autores como um exemplo das dinâmicas desse comércio. Pesquisadores da Universidade da Cidade do Cabo (UCT) estimam que, entre 2010 e 2021, cerca de 800 mil papagaios-cinzentos-africanos foram comercializados internacionalmente. Monitoramentos de contas de exportadores no Facebook, no Togo, identificaram mais de 200 espécies diferentes sendo anunciadas à venda.
No caso das plantas suculentas do bioma Karoo Suculento, na África do Sul, o gênero Conophytum se tornou muito procurado por colecionadores internacionais a partir de 2019. O aumento da coleta ilegal saturou o mercado e fez o preço da planta cair para aproximadamente um centésimo do valor anterior em apenas três anos. Apesar da queda nos preços, a pressão sobre a biodiversidade não cessou: a coleta migrou para outras espécies de plantas e para répteis.
Consequências e lacunas no conhecimento
Além da ameaça direta às populações das espécies comercializadas, os pesquisadores alertam para riscos adicionais, como a dispersão de espécies exóticas invasoras e a maior probabilidade de surtos de doenças transmissíveis entre animais e humanos (zoonoses).
Os autores ressaltam, porém, que ainda existem lacunas importantes para estimar o volume real do mercado digital e para compreender melhor o perfil e os motivos dos consumidores — limitações que impedem o desenho de respostas mais eficazes.
Recomendações
Para enfrentar o problema, os pesquisadores propõem uma abordagem integrada:
- fortalecer a vigilância com ferramentas de inteligência artificial que detectem ofertas ilegais;
- endurecer a moderação e as regras das plataformas digitais;
- melhorar a coordenação entre empresas de tecnologia, reguladores, organizações não governamentais e comunidades locais;
- valorizar o conhecimento e a participação das comunidades do Sul Global no desenvolvimento de políticas;
- apoiar e aplicar marcos internacionais, como a CITES, e normas regulatórias digitais — por exemplo, a Lei dos Serviços Digitais da União Europeia.
Annette Hübschle, pesquisadora da UCT e única coautora residente na África, enfatiza que tecnologia e policiamento não bastam sozinhos: é necessária a inclusão das comunidades locais e de quem vive nas áreas afetadas para formular respostas mais eficazes.
Ao concluir, Di Minin sintetiza a mensagem central do estudo: o problema é complexo, “mas não insuperável”, exigindo cooperação entre setores e políticas capazes de responder à dimensão digital do tráfico de fauna e flora.
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