O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou neste fim de semana em Dublin que gostaria de ver a Irlanda reunificada, posicionamento que reabre um tema sensível nas relações com o Reino Unido e marca uma quebra na prática histórica de neutralidade americana sobre a questão.
Trump fez a declaração durante uma visita a Dublin e em pelo menos outras duas ocasiões ao longo do fim de semana, ao lado do primeiro‑ministro irlandês Micheál Martin. Segundo interlocutores, o presidente disse que a união das duas partes da ilha lhe parecia algo natural e desejável, e acrescentou que muita gente partilhava dessa opinião.
O governo britânico respondeu rapidamente, reiterando que a reunificação e qualquer eventual referendo estão fora de questão no momento. A reação pública veio também de aliados e adversários políticos: o populista Nigel Farage, aliado frequente de Trump, declarou no X que a Irlanda do Norte é parte integrante do Reino Unido e que a população não quer um plebiscito ou a unificação; já nacionalistas da Irlanda do Norte e figuras históricas do Sinn Féin, como Gerry Adams, saudaram a intervenção, dizendo que o posicionamento ecoa o sentimento de parte da diáspora irlandesa nos EUA.
Analistas e governantes europeus interpretaram a fala de Trump como uma provocação destinada a desestabilizar Londres e a dividir opiniões na Europa: as respostas contrárias surgiram com rapidez, aumentando a tensão entre os aliados transatlânticos.
O Acordo de Sexta‑Feira Santa, assinado em 1998 com mediação do então presidente dos EUA Bill Clinton, determina que a convocação de um referendo sobre a reunificação só pode ocorrer se a maioria da população da Irlanda do Norte assim o desejar; a República da Irlanda também precisaria aprovar a mudança em plebiscito.
O pacto de 1998 pôs fim a três décadas de confrontos — período que registrou mais de 3 mil mortos e cerca de 47 mil feridos — entre nacionalistas, majoritariamente católicos e favoráveis à união com a Irlanda, e unionistas, em sua maioria protestantes, que defendiam permanecer no Reino Unido.
Observadores lembraram que a intervenção de Trump segue padrão já visto em outras ocasiões, quando ele levantou questões sobre territórios e autonomias em países como Canadá e Groenlândia. Além disso, a declaração surge em um momento de fragilidade nas relações entre Washington e Londres, agravada por divergências recentes, entre elas a recusa do governo britânico em apoiar uma ação militar contra o Irã e episódios em que o presidente americano deixou em aberto se prestaria assistência ao Reino Unido num eventual novo confronto pelas Ilhas Malvinas.
Analistas também assinalam um possível cálculo doméstico: com as eleições de meio de mandato nos EUA ameaçando fazer os republicanos perderem o controle do Congresso, o posicionamento sobre a questão irlandesa pode ter intenção de mobilizar eleitores. Cerca de 10% do eleitorado norte‑americano afirma ter ascendência irlandesa, mas esse segmento está dividido entre os dois grandes partidos, o que pode limitar o efeito político esperado.
Especialistas em relações internacionais avaliam que, além de reacender um tema delicado para a paz na Irlanda, a intervenção pública do presidente pode complicar interlocuções diplomáticas e exigir esforços de mediação para evitar escaladas desnecessárias entre parceiros históricos.
Por Sandra Cohen. Atualizado em 14/09/2026.
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